Boi recebeu carícias. Dizem também que excelente alimentação. Ganhou nome. Mas o que isso importa agora? Na mansidão, aceita o último afago. Não reconhece malícia. Por que reconheceria?
Bom tratamento também veio em forma de cicatriz grande no couro, pra mostrar ao mundo que você tem dono, que não é de si, e que deve tudo a quem lhe criou – sua vida, sua morte, sua carne.
Sua saúde é celebrada, não pelo seu bem-estar, por ser prova de produto bem valorizado. “Tem carcaça muito boa, que rende bem.” Pouco importa a expressão, os olhos ou como mudam as batidas do coração.
“Medo, temor, terror? Nada disso.” Na fazenda, veem um mapa de cortes no seu corpo – do cupim ao lagarto ou músculo traseiro. Seus olhos vagam pelo que é permitido.
Avaliam suas partes ainda vivas enquanto sua liberdade cabe num retângulo. Tem força para ir longe, mas não prevê o que vai acontecer. E se resistir, como vencer? Mantém as orelhas em altura que não revela desconfiança.
Já te imaginam de ponta-cabeça, no pós-abate e em destaque no açougue. “Que dê bom retorno ao frigorífico para que eu possa enviar muitos outros para o mesmo lugar.” É o que importa quando o lucro é determinado pelo apetite.
A bondade da criação é a bondade da execução? Há quem diga que é possível ser compassivo matando animais vulneráveis e saudáveis. “É pra matar com jeitinho? Com carinho?”, pode-se pensar. É o poder de abjeta ressignificação, dissimulação.
Defendem que não há violência no prato, que você não sofreu, que atirar contra seu crânio e te degolar é garantir morte digna. Mas quem em condições de racionalizá-la se sujeitaria?
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