Olhou um peixe numa fina faixa de areia onde a água mal encostava. “Que faz aqui e não lá?” Desejou que não sucumbisse à asfixia, que seus olhos não dilatassem, que se debatesse e não partisse de um estado corpóreo – que mergulhasse fundo. “É cedo, tão cedo…”
Demorou a perceber que não era a vontade do peixe que o trazia. Correu e o empurrou de volta. Continuou voltando, pelas mãos invisíveis dos homens. “Onde estão que não vejo? Será que estão só fora de mim ou também em mim e por isso não reconheço nem vejo?”
Levantou de novo e empurrou o peixe outra vez para a água. Não funcionou. Já estava fora d’água quando recomeçou a morrer. Não viu desespero, e foi pior do que se visse, despertando aflição, agonia.
O pegou nos braços e correu, afastando-se da margem, mantendo-o numa espécie de suporte, que abriu-se para a liberdade. Então o peixe desapareceu. “Agora sim…que vá embora…”
Sentiu-se aliviado e retornou à margem, onde o peixe já estava, tremelicando numa faixa. “Que posso fazer se não para de morrer?” Fechou os olhos por segundos e abriu. Viu emaranhado de linhas ao redor do animal.
“Não é o mesmo que vejo ao mesmo tempo que é.” Correu até ele e livrou-se das linhas. “Agora vá…para longe das arrioscas.” O peixe nem se mexeu, e as linhas o envolveram. “Não havia vida desde o começo e como demorei para ver…sempre te dizendo o que fazer.”
Fechou os olhos outra vez e quando abriu não viu peixe. Foi levado, assim como tantos outros derramados a contragosto que enche-nos duma quimera de gosto.
“Restam as marcas que desaparecem e surgem o tempo todo. Quem celebra o exercício involuntário da água de apagá-las?” Olhou para a água, esperando ver o mesmo peixe partir para longe, dando-lhe esperança. “Talvez partisse, se realmente permitisse. E quem permite?”
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