Como o amor pelos animais limita o alcance da causa animal

Quando o afeto se torna uma barreira, a causa perde seu potencial de mudança estrutural

Como o amor pelos animais prejudica a causa animal
Ilustração: Roland Straller

A armadilha bem-intencionada: quando o amor se torna uma barreira

O amor pelos animais limita o alcance da causa animal? Quando as pessoas gostam de animais ou amam animais, elas podem facilmente essencializar esse sentimento até mesmo em suas ações que visam envolver mais pessoas em uma mudança de atitude que favoreça esses animais.

O sentimento da apreciação ou do amor é tratado como um sentimento nobre que deve ser cultivado pelos animais não humanos. Não por acaso, muitas pessoas internalizam até no próprio ativismo uma relação que pode levar a uma conclusão por parte de quem não está inserido nesse meio que o amor é e deve ser um fator primário.

O problema: a hegemonia do amor como portal moral

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Assim, há conclusões como: “Isso é coisa para quem ama animais, para quem gosta de animais.” E se tudo que as pessoas mais veem sobre a defesa de animais não humanos reforça isso, como culpá-las por essa conclusão?

Isso pode ser estimulado até de forma irrefletida – quando o foco prioritário de alguém é externar seu amor pelos animais. Não que as pessoas não devam fazer isso. O que proponho é uma reflexão sobre quais significados são construídos e fortalecidos a partir de como é transmitida a relação com os animais e a percepção que se tem deles.

A barreira do afeto: por que o alcance da causa se torna limitado

Se no ideário popular a percepção mais comum é de que quem se interessa por questões que envolvem animais é porque ama animais ou gosta de animais, isso já cria uma barreira que precisa ser superada para ser mais inclusiva.

Afinal, se só pessoas que amam animais ou gostam de animais devem se envolver em questões favoráveis aos animais, muita gente acaba ficando de fora. Logo, há um alcance muito menor do que poderia e deveria ter para promover mudanças – principalmente mudanças estruturais.

A ênfase irrefletida no amor pelos animais, embora bem-intencionada, cria uma barreira de identificação para quem não opera primariamente a partir desse registro emocional. Isso afasta pessoas perfeitamente capazes de entender argumentos lógicos, mas que não se identificam com o estereótipo emocional.

E, sem dúvida, isso impacta na disposição das pessoas em relação ao veganismo e até mesmo no envolvimento em práticas com menos resistência cultural e social – como a proteção de cães e gatos.

A alternativa: a ética como fundamento inclusivo

Uma questão de interesses, não de sentimentos: a base para uma consideração universal

Por exemplo, se compreendemos que um animal não deve ser prejudicado porque ele tem interesse em não ser prejudicado, podemos desromantizar essa visão partindo da mesma consideração de que não devemos prejudicar um ser humano não porque gostamos dele, mas porque ele tem interesse em não ser prejudicado.

A lição com os humanos: por que não precisamos amar para respeitar

A valorização do sentimento por um animal como medida de consideração acaba também reproduzindo especismo, já que, com base no exemplo que citei, não fazemos isso com humanos. Podemos lembrar de matérias que lemos sobre pessoas assassinadas e isso nos incomoda mesmo quando não conhecemos essas pessoas. Afinal, elas foram prejudicadas em seus interesses básicos. Não terão um futuro nem poderão experimentar mais o que lhes dava prazer.

Podemos estender a mesma consideração aos animais não humanos prejudicados por ações humanas – seja por meio de nossos hábitos de consumo (que custam sua exploração e/ou vida) ou de abandono (cães e gatos), entre outros exemplos.

O compromisso moral mínimo: para além da virtude, o dever

O que fazemos que reflete a consideração do interesse de um animal como fim no próprio animal não é uma questão de virtude nem pode ser apontada de tal forma. É apenas reconhecer um interesse básico que não faz sentido somente na esfera humana. Não diríamos que atender aos interesses básicos de um ser humano é manifestar uma virtude. Não, o que fazemos ao defender e querer proporcionar isso a um ser humano é um compromisso moral mínimo. E podemos e devemos também exercitar um compromisso moral mínimo em relação aos outros animais.

As consequências negligenciadas da linguagem do amor

O especismo do afeto: a incoerência moral que perpetuamos

A romantização do cuidado aos animais como expressão de amor está tão entranhada na consciência coletiva que para muitas pessoas chega a ser impossível conceber que alguém possa ter responsabilidade por suas ações em relação aos animais nessa ausência.

Esse é um ponto que ignora a potência da consideração pelos animais como questão de ética e de justiça, e que é menos limitante do que uma ideia de condicionamento à apreciação e ao amor.

O problema da sinalização de virtude

Além de excludente, a narrativa do afeto carrega um risco social: ela é facilmente interpretada como sinalização de virtude. Quando uma causa é emoldurada pela demonstração de um sentimento tido como nobre, como o amor pelos animais, a mensagem pública pode se deslocar do animal para o seu mensageiro (a virtude de quem defende).

O mecanismo de rejeição: como a performance sentimental afasta pessoas

Esse enquadramento gera um efeito contraproducente crucial. Ao se depararem com essa performance de afeto, pessoas que não compartilham da mesma intensidade emocional ativam um mecanismo de rejeição. Elas não se veem naquela imagem e, portanto, concluem que a causa “não é para elas”. A barreira não é moral, mas identitária e emocional. A defesa animal é rejeitada não por seu conteúdo, mas por sua embalagem sentimental, que não encontra um contraponto interno em quem não sente o mesmo.

Desconstruindo para reconstruir: novos caminhos

Do amor à custódia: a responsabilidade ética pela domesticação

Ainda é comum, por exemplo, a validação de que só o amor justifica alguém cuidar de cães e gatos, quando, na verdade, uma pessoa pode fazê-lo apenas por reconhecer que esses animais também merecem uma vida digna dentro dos limites impostos pela domesticação que os precede.

Uma pessoa pode acolher um animal doméstico, incluindo aqueles que normalmente são criados para consumo, não movida por amor, mas por um dever de justiça reparadora ao reconhecer que esses animais existem em nossa esfera como consequência direta da domesticação  – uma condição que humanos impuseram aos antepassados desses animais.

Esse é um olhar que reconhece a senciência e os interesses próprios em não sofrer, em ter abrigo, comida e bem-estar. Assim, perante um indivíduo necessitado dessa população que nossa cultura criou, há uma obrigação moral de agir, independentemente de um sentimento de “amor”.

É o entendimento de que, já que nós, como espécie, os trouxemos para essa condição de dependência, temos o dever de lhes garantir uma vida digna.

Respeitando a alteridade: contra a antropomorfização e a favor do animal em si

Essa também é uma consideração que incorre menos no erro da antropomorfização (buscar o humano no não humano) do que o amor e que também pressupõe que reconheçamos o animal em sua alteridade (em suas diferenças que o constituem como ser).

A ética como principal padrão de consideração nos permite enxergar, por exemplo, o valor inerente na “caninidade” do cachorro, na “felinidade” do gato, na “suinidade” do porco, na “galinidade” da galinha, etc.

O terreno comum da ética: quebrando a zona de conforto moral

Ao conduzir a discussão para o terreno comum da ética básica, deslocamos a questão de um domínio subjetivo (“Você é capaz de sentir amor?”) para um domínio objetivo universal (“Você é capaz de reconhecer que um ser pode ser prejudicado?”). Nesse novo terreno, a zona de conforto moral é quebrada. A pessoa não pode mais se esconder atrás da desculpa de que “simplesmente não sente nada por eles”.

A pergunta agora apela para uma capacidade que já existe nela: a compreensão racional e empática do que é sofrer e ter um interesse violado. Negar consideração deixa de ser sobre uma falha de sentimento e passa a ser sobre uma incoerência de princípio. Dessa forma, convidamos uma audiência muito mais ampla a encarar a questão animal não como um teste de seu coração, mas como um exercício de sua própria coerência moral.

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Afinal, todos eles têm interesse em não ser prejudicados e querem que seus interesses básicos sejam atendidos. Isso é algo que podemos proporcionar sem precisar condicionar essas ações ao amor ou a apreciação.

Até porque, se condicionamos, atendemos aos interesses dos animais somente à medida de nosso sentimento. Portanto, eles continuariam sendo secundarizados em seus interesses. O bem-estar deles não pode ser um subproduto de nossa sensibilidade individual.

O convite à coerência: como falar de justiça atrai mais do que um apelo ao coração

Para ser mais inclusiva, a preocupação com os animais precisa ser mais de ordem moral do que sentimental. Quando pensamos em aproximar pessoas do veganismo, ou da simples consideração por cães e gatos, o interesse de qualquer animal em não ser prejudicado, assim como o interesse em seu bem-estar e em não ser trazido ao mundo para sofrer por causa de interesses humanos ou negligência humana devem ser os maiores fatores explorados em consideração.

Não se pergunta “o que eu sinto?” (amor, compaixão), mas “o que ele precisa?” (justiça, respeito). É a passagem de uma ética centrada no sujeito humano (antropocêntrica e sentimental) para uma ética centrada no sujeito não humano e em seus interesses.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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