Uma criança viu pela primeira vez um peixe sendo tirado da água. Lutava com o anzol preso à boca. O homem levou a vara para perto do menino pensando que ele acharia divertido. Tudo que ele via era a energia do peixe em movimentos que, ao contrário do que se poderia imaginar, não diminuíam, mas aumentavam.
Para a criança, o peixe queria a água, precisava da água. Por que desejaria estar preso a algo que dói, algo que existe para causar-lhe mal? Testemunhando a agonia do peixe, o menino não conseguiu disfarçar o incômodo – nem quis.
Perguntou ao homem se ele viveria sem ar. “Como seria morrer por não poder respirar?” Estranhou a pergunta do menino, que era seu sobrinho, mas sorriu e falou que não se pode comparar um ser humano com o peixe.
O menino disse que a dor, se é ruim pra gente, por que a dor que atinge o peixe não seria ruim para ele? O peixe, ainda balançando, submetido à força humana, começou a perder força e a debater-se pouco, enquanto dois filetes de sangue escorriam pelo corpo e tocavam a mão do tio.
“Não tem dor nesse sangue?, perguntou o menino. O homem tirou o gancho da boca do peixe e o devolveu à água. Logo o peixe desapareceu, deixando vestígios de sangue que eram iluminados pela luz do sol.
“Será que não é pra não esquecer que não é só a gente que pode sofrer?”, disse o menino.
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