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Dia Mundial pelo Fim da Pesca lembra por que não devemos comer peixe

Peixes têm sofisticada capacidade de senciência e podem sofrer tanto quanto os mamíferos (Fotos: Acervo PETA)

Celebrado ontem (27) por ativistas dos direitos animais de muitos países, o Dia Mundial Pelo Fim da Pesca lembrou mais uma vez as razões para não nos alimentarmos de peixes, o que inclui a sofisticada capacidade de senciência desses animais que podem sofrer tanto quanto os mamíferos e ainda assim são as maiores vítimas da violência humana. Além disso, peixes têm alguns sentidos superiores aos nossos.

Mas se esses argumentos ainda não forem suficientes, pense no impacto ambiental decorrente da matança de 790 bilhões a 2,3 trilhões de peixes por ano e como isso pode desequilibrar o ecossistema marinho e afetar a vida no planeta. Não podemos ignorar também que esses números não incluem peixes criados em cativeiro, segundo levantamento do site britânico Fish Count.

Sem dúvida, essas informações colocam os peixes na posição de animais mais prejudicados pela humanidade por ano em relação a volume, e o mais surpreendente é que estamos falando principalmente de animais não domésticos ou domesticados, ou seja, que existiriam e viveriam muito bem sem a nossa intervenção, já que eles prosperam em seu próprio habitat.

Negação do reconhecimento da capacidade de sentir dor

Quem nunca viu um peixe asfixiado com uma expressão que não fosse similar a do desespero? Ainda assim, são os animais capturados para consumo ou criados com essa finalidade a quem a humanidade mais nega reconhecimento da capacidade de sofrer, e apenas porque o sofrimento deles não mimetiza muito o nosso.

A dor dos peixes é ignorada porque, ainda que o animal se debata muito antes de morrer, ou se esforce para se livrar de uma rede ou anzol, poucos qualificam isso como uma real dimensão de sofrimento.

Isso acontece porque é mais fácil crer que tal dor inexiste, ainda que seja uma criatura que sangre ou que traga uma clara expressão de que morreu em decorrência da asfixia que sobrechega à violência da captura realizada com instrumentos penetrantes que perfuram e/ou rasgam sua carne e boca.

Há peixes que sofrem por até quatro horas após a captura

Enquanto alguém comemora a satisfação de tirar um peixe da água, o animal agoniza. Há espécies como o arenque, bacalhau e badejo que podem sofrer por até 50 minutos após a pesca na luta pela sobrevivência. Outros, por até quatro horas, como é o caso do linguado.

Uma pesquisa divulgada no último trimestre de 2019 apontou que peixes podem sofrer de forma muito semelhante aos mamíferos, incluindo humanos. De autoria da pesquisadora Lynne Sneddon, do Instituto de Biologia Integrativa da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, o estudo afirma que os peixes hiperventilam e deixam de se alimentar quando estão sofrendo.

‘Quando sujeitos a um evento potencialmente doloroso, os peixes mostram mudanças adversas no comportamento, como suspensão da alimentação e atividade reduzida, que são interrompidas quando recebem um medicamento para alívio da dor”, informa a autora.

Sofrimento semelhante ao dos mamíferos

Lyne Sneddon também percebeu que quando peixes em cativeiro recebem algum estímulo doloroso, eles esfregam a boca na lateral do tanque da mesma forma que esfregamos os dedos dos pés. Além disso, os animais são capazes de detectar quando são feridos. E nesses casos, um “breve reflexo” é indicativo da tentativa em se afastar do mal que está provocando a dor.

O estudo intitulado “Fish experience pain with ‘striking similarity’ to mammals” e publicado na revista Philosophical Transactions, da Royal Society, também sustenta que “o teste para determinar se um animal sente dor é se há alterações em seu comportamento” e, sem dúvida, os peixes provam que sim. A publicação defende que há evidências de que o sistema nervoso dos peixes tem os mesmos receptores do sistema nervoso humano.

Peixes têm alguns sentidos superiores aos dos humanos

Outros estudos também defendem essas semelhanças. Mais um exemplo é “Fish Intelligence, Sentience and Ethics”, publicado na revista Animal Cognition. No trabalho, o professor Cullum Brown, do Departamento de Ciências Biológicas da Macquarie University, em Sydney, na Austrália, escreveu, baseando-se em suas pesquisas, que peixes têm suas próprias tradições, inteligência sofisticada e capacidade de cooperação e reconciliação, além de facilidade em reconhecer uns aos outros.

Ademais, alguns sentidos dos peixes são superiores aos dos seres humanos. “O nível de complexidade mental dos peixes está no mesmo nível de outros vertebrados, e há evidências de que eles podem sentir dor de maneira semelhante aos seres humanos”, registrou.

Um dos animais mais explorados pela humanidade, os peixes são quase sempre “colhidos” em ações violentas praticadas pela indústria pesqueira global. Também são as maiores vítimas da aquicultura intensiva e comumente são reduzidos a animais de estimação e objetos de pesquisa. “Os peixes raramente recebem o mesmo tipo de compaixão que oferecemos aos vertebrados de sangue quente. Parte do problema é a grande diferença entre a percepção das pessoas sobre a inteligência do peixe e a realidade científica”, argumentou Cullum Brown.

Peixes carregam 283 vezes mais parasitas

De acordo com o resultado de uma pesquisa divulgada no ano passado na revista NewScientist, os peixes marinhos carregam 283 vezes mais parasitas do que em 1980.

A conclusão é de um grupo de pesquisadores da Universidade de Washington, nos EUA, que analisaram a concentração de anisakis, parasita que atinge peixes, lulas, baleias e golfinhos, causando lesões gástricas.

Segundo o trabalho, que considerou o período de 1978 a 2015, e o número médio de parasitas com base em 123 estudos, hoje é possível encontrar 283 vezes mais parasitas em peixes marinhos do que há 40 anos. O resultado foi baseado em análises feitas em 56.778 peixes.

Os pesquisadores apontam que os seres humanos também podem contrair esses parasitas ao consumirem peixes infectados crus, defumados ou congelados incorretamente. Entre os sintomas da anisaquíase em seres humanos estão náuseas, vômitos e diarreia.

A razão para o aumento ainda não está clara, mas os cientistas destacam que pode estar associada, entre outras razões, ao aquecimento dos oceanos.

Saiba Mais

Assista ao documentário “Seaspiracy”, disponibilizado esta semana na Netflix, para conhecer outras razões para não consumir peixes.

David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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  • A desgraçada raça humana a que pertenço, pouco ou nada evoluiu em matéria de racionalidade e sentimento. Os milenios que atravessamos na conquista de objetos e coisas, não nos tornou mais conscientes ou melhores do que antes. Continuamos os brutamontes primitivos que subjugam o mais fraco, ao invés de protege-lo e exploram, por dinheiro, as espécies que deveriamos salvar, por amor.

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