O Brasil passa por um período em que cresce o número de deputados se empenhando em garantir o reconhecimento da criação de animais com fins de exploração como patrimônio cultural imaterial.
Além do PL 318/2021, do deputado federal Paulo Bengtson (PTB-PA), um projeto de lei semelhante foi apresentado este mês na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) pelo deputado Fernando Francischini (PSL).
Segundo o autor do PL 85/2021, a proposta “visa prestar o devido reconhecimento àqueles que desempenham a honrosa atividade de criador de animais e também de protetor de animais no Paraná”.
O projeto de lei não vela que o reconhecimento como “protetor” entra no projeto como forma de ganhar apoio para reconhecer a criação de animais com fins comerciais como patrimônio cultural imaterial. Sem dúvida, um endosso à exploração animal, já que o reconhecimento e defesa do uso de animais como meio de lucro, seja para companhia, alimentação, entretenimento ou qualquer outro fim, já deixa claro que a prioridade é ganhar dinheiro, não proteger os animais – o que no caso do PL 85/2021 revela conflito, contradição e pode promover mais insegurança jurídica.
“Em relação aos criadores, é sabido que no nosso estado existe uma grande gama de consagrados criadouros de animais, que visam a difusão de raças, o aprimoramento genético…”, destaca Francischini, admitindo que vê animais como bens móveis, produtos, e que sua proposta visa reduzir oposição às práticas que exploram animais em benefício humano.
O deputado cita com orgulho criadouros especializados na reprodução de equinos, bovinos, suínos, cães e gatos – como se submeter animais a relações sexuais com fins comerciais não fosse uma forma de exploração, e que o seu PL tenta fazer parecer que existe alguma outra razão por trás disso que não seja atender interesses econômicos.
Por meio do Projeto de Lei 85/2021, Fernando Francischini faz de conta que está em convergência com os protetores de animais, porque ele sabe que uma forte oposição contra sua proposta pode miná-la. Então é mais cômodo dissimular a realidade.
Sabemos que a criação de cães com finalidade de lucro também é injustificável, considerando os milhões de abandonados que circulam pelas ruas do Brasil e necessitam de um lar.
Estimular ainda mais a venda de animais e proteger quem os cria com finalidade comercial é uma clara manifestação de indiferença em relação ao sofrimento e interesses dos animais. Até quem se preocupa apenas com cães e gatos deve ter em mente que estes sofrerão ainda mais com a aprovação do PL 85/2021.
Afinal, beneficia a venda de “animais de raça” ao reconhecer a prática como patrimônio cultural do Paraná, assim contribuindo para perpetuar e ampliar o preconceito contra aqueles classificados como “sem raça definida”, que representam a maioria dos cães e gatos sem moradia. Ou seja, animais que passam fome, correm riscos e são mortos nas ruas.
Como apoiar uma proposta que visa normalizar ainda mais o ato de submeter animais a relações sexuais para que alguém obtenha lucro? Como isso pode ser aceitável em 2021? Enquanto houver criadouros comerciais de animais teremos pessoas não se importando com a realidade dos animais que vivem nas ruas.
Vale lembrar que o Fórum de Defesa dos Direitos dos Animais de Curitiba manifestou-se no último dia 23 contra a proposta:
“Embora possa parecer bem positivo e levar a acreditar que é algo benéfico aos animais a aprovação desse projeto, na realidade fará com que a criação desenfreada de animais e a apropriação de animais para fins comerciais, de lazer (zoológicos, aquários, charretes de passeio, apresentações como rodeios, etc), de alimentos, de bens de consumo em geral, bem como realimento ao tráfico e comércio de animais silvestres fiquem fora de controle.”
Segundo o FDDA de Curitiba, a aprovação do PL terá como consequência aumento dos maus-tratos, abandono e exploração de animais. “São seres sencientes, que têm sentimento e consciência, e a fiscalização dos abusos cometidos ficará sempre refém do fato de se tratar de ‘patrimônio’ e ‘cultura’, ‘patrimônio do povo’. Poderá trazer muitos conflitos jurídicos na fiscalização das práticas de criação e de trato de animais”, alerta.
Saiba Mais
Clique aqui para conhecer uma petição contra o projeto de lei de Fernando Francischini.
A Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba pede que sejam encaminhados e-mails aos deputados da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) contra o PL 85/2021. Clique aqui para conhecer a lista.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…