Sonhou que o mundo mudou. Carnes, laticínios, ovos ou qualquer produto de origem animal, comestível ou não, contavam suas próprias histórias. Parte dos consumidores, identificados como “kuklis”, ficou enraivecida e fundou um movimento pelo “direito de não saber o que se consome”, financiado pelas indústrias que mais lucravam e ditavam as políticas de consumo mais convergentes aos seus interesses.
“As pessoas querem apenas ter prazer em comer, consumir, não querem ser incomodadas com questões sobre cadeia produtiva. É um direito não saber. É um direito não receber informações indesejadas. É um direito não querer rever seus hábitos”, destacava um painel encontrado em cada esquina.
Mas já não era possível, porque a mudança aconteceu alheia ao consentimento da humanidade, como tipo consciencioso de reparação à ausência de consentimento em relação aos animais reduzidos a produtos.
“Seria uma tecnologia que ainda não entendemos? Uma maldição? Coisa de espécies superiores à nossa?” Quem sabia responder? Não importava o investimento feito para combater a mudança. Ninguém conseguia evitar que ao tocar um produto o consumidor fosse levado a uma digressão definida como “consciência-maior”.
Mas não era preciso encostar em nada de origem animal. Bastava estar próximo e manifestar desejo em comprar algo para ser levado por uma jornada dentro da própria consciência que mostrava o que ocorreu antes daquele produto chegar ali.
“Como foi a vida e morte de um animal antes de ter suas partes em bandejas?” As respostas abrigavam-se na mente do consumidor e lampejavam. Não havia como resistir. Surgiram equipamentos de bloqueio assimilativo, cognitivo, e nenhum deles cumpria o que prometia.
Foram gastos trilhões para tentar reverter a situação, o que não impediu a falência de quem não queria desistir de explorar animais. Sobreviveram somente aqueles que fizeram uma transição quando perceberam o inevitável – não havia tecnologia ou mistério, apenas uma sociedade evoluída.
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