Categorias: Pequenas Narrativas

E se alimentos de origem animal contassem suas próprias histórias?

Ilustração: Tommy Kane

Sonhou que o mundo mudou. Carnes, laticínios, ovos ou qualquer produto de origem animal, comestível ou não, contavam suas próprias histórias. Parte dos consumidores, identificados como “kuklis”, ficou enraivecida e fundou um movimento pelo “direito de não saber o que se consome”, financiado pelas indústrias que mais lucravam e ditavam as políticas de consumo mais convergentes aos seus interesses.

“As pessoas querem apenas ter prazer em comer, consumir, não querem ser incomodadas com questões sobre cadeia produtiva. É um direito não saber. É um direito não receber informações indesejadas. É um direito não querer rever seus hábitos”, destacava um painel encontrado em cada esquina.

Mas já não era possível, porque a mudança aconteceu alheia ao consentimento da humanidade, como tipo consciencioso de reparação à ausência de consentimento em relação aos animais reduzidos a produtos.

“Seria uma tecnologia que ainda não entendemos? Uma maldição? Coisa de espécies superiores à nossa?” Quem sabia responder? Não importava o investimento feito para combater a mudança. Ninguém conseguia evitar que ao tocar um produto o consumidor fosse levado a uma digressão definida como “consciência-maior”.

Mas não era preciso encostar em nada de origem animal. Bastava estar próximo e manifestar desejo em comprar algo para ser levado por uma jornada dentro da própria consciência que mostrava o que ocorreu antes daquele produto chegar ali.

“Como foi a vida e morte de um animal antes de ter suas partes em bandejas?” As respostas abrigavam-se na mente do consumidor e lampejavam. Não havia como resistir. Surgiram equipamentos de bloqueio assimilativo, cognitivo, e nenhum deles cumpria o que prometia.

Foram gastos trilhões para tentar reverter a situação, o que não impediu a falência de quem não queria desistir de explorar animais. Sobreviveram somente aqueles que fizeram uma transição quando perceberam o inevitável – não havia tecnologia ou mistério, apenas uma sociedade evoluída.

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

17 horas ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

1 mês ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago