E se fôssemos reduzidos a pedaços de carne?

“Jovens Canibais” é um filme de terror que apresenta um grupo que consome carne humana sem saber que está consumindo carne humana.

A experiência para eles, que desconhecem a origem da carne, é prazerosa, e favorece uma reflexão sobre os hábitos humanos de consumo. É o não saber que leva à aceitação de comê-la, pela conclusão de que são “apenas hambúrgueres”, ou seja, carne comível, pela sua forma, seu preparo, seu tempero e seu sabor final. “Por que não comer a carne de animais que existem só para morrer?”

Isso ocorre também pelo comum desinteresse em relação à precedência, o que também é naturalizado nas práticas cotidianas de consumo (ninguém [ou quase] quer conhecer o animal de quem foi arrancada determinada parte ou pedaço).

Uma das personagens levanta um breve questionamento sobre a origem do hambúrguer, para logo ceder; porque se há interesse pela carne, o interesse sobressai-se à dúvida, já que o apetite pelo que se apresenta é imperativo.

Assim a fácil aceitação da não reconhecida carne humana sustenta-se no desejo pela carne de outros animais, porque é esse desejo que facilita o consumo da carne humana e os coloca em uma situação de “canibais” a serem também comidos.

Não é estabelecida uma distinção em relação à carne humana e a carne de outros animais, porque somos apenas animais que escolhem comer outros animais, e que se há carne, proteína, em outros animais, também há em nós. E se eventualmente passássemos pelo que passam outros animais?

No filme de Sam Fowler e Kris Carr é eliminada a barreira que determina o que é comível e o que não é em relação à carne, e isso é reforçado depois pela experiência de que o canibalismo involuntário, mas baseado no que é voluntário sobre o consumo de carne, torna esses jovens alvos de caça de uma criatura essencialmente carnívora que vive na floresta.

O único que não é submetido à experiência de ser caçado é o vegano do grupo, que se recusa a comer carne desde o início. E mesmo mais tarde, quando é ameaçado, prefere morrer a comê-la.

O filme está disponível no Prime Vídeo.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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