
O assassinato do cão Orelha repercutiu bastante porque era um cão integrado a uma comunidade. Ou seja, havia sempre pessoas preocupadas com ele, com seu bem-estar, e que sabiam onde encontrá-lo. Se algo acontecesse com ele, pessoas notariam, buscariam saber o que houve. Isso faz com que sua história tenha um grande poder de atrair atenção, de mobilizar pessoas, de vocalizar contra a impunidade. Portanto, foi o lugar de Orelha nas relações humanas (ética relacional) que permitiu que esse crime brutal não passasse despercebido.
Isso mostra como a consideração que envolve a vida de um animal depende de como ele está inserido nas relações humanas e que importância é atribuída a ele. É uma realidade que faz pensar em animais que não estão integrados a nenhuma comunidade humana – que morrem em situação de rua sem que em vida sejam vistos como mais do que seres que despertam uma observação do tipo: “Parece que já vi esse animal antes.”
Difícil não imaginar que, diariamente no país, há cães e gatos sendo torturados e assassinados. Como não têm um lar ou laços fixos com humanos, podem ser mortos e encontrados assim sem que suas mortes sejam tratadas como mais do que meros “acidentes”, já que estão fora da ética relacional.
Animais encontrados mortos na rua normalmente são vistos como vítimas de “uma fatalidade”. Esse mecanismo psicológico de classificar um corpo na rua como “acidente”, verdade ou não, é também uma forma de autopreservação. Se for um animal que ninguém ou quase ninguém parece conhecer, as chances de que isso ocorra aumentam. Isso torna esses animais alvos mais frequentes de violência – são os anônimos que podem sequer integrar estatísticas ou até integrá-las erroneamente.
Infelizmente a valorização da vida animal não humana ainda é muito dependente da lógica do animal não como fim em si mesmo, mas do animal como parte de uma construção relacional conosco – o conhecer, o conviver. Isso também faz com que animais que evitam o contato humano se tornem grandes vítimas invisíveis dessa violência.
Caso Orelha também mostra que é preciso ir além da ética relacional
Um animal perto do asfalto, por exemplo, sem vida, pode ser sempre observado por um passante como um “animal atropelado”, mesmo que sua morte possa ter sido criminosa e sequer ter relação com um atropelamento. O que também favorece isso é que também temos o costume de evitar olhar para um animal morto. A naturalização da ideia de que um cão ou gato encontrado morto foi vítima de uma morte “acidental” surge frequentemente porque a nossa mente tende a operar dessa forma – porque podemos partir de um lugar que reflete a nossa própria percepção sobre esses animais.
Afinal, temos uma tendência a evitar pensar no pior. É uma reação psicológica como mecanismo de preservação do próprio bem-estar emocional e senso de normalidade. Isso se reflete também no caso do cão Orelha, já que a descrição da crueldade com que o animal foi morto por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis (SC), ainda parece inacreditável para muita gente.
E essa reação de “descrença” ocorre não por desconsideração de quem se deparou com esse caso, mas porque a reflexão das pessoas sobre essa realidade sempre parte da questão relacional delas com os animais.
Enfim, o desafio, então, é construir uma sociedade que enxergue e projeta a vida pelo simples fato de ela ser vida, independentemente de qualquer outro fator que possamos ver como positivo para os animais – ainda que sejam, na verdade, consequenciais, condicionais ou relacionais.
Importante também é estender isso não somente a determinados animais, mas também àqueles com quem temos uma relação baseada em exploração, utilidade e consumo. Afinal, se o que importa é o interesse de um animal em não ser morto, prejudicado e em ter seu bem-estar preservado, devemos continuar ignorando isso em relação a tantos outros animais? Não podemos ignorar que a vida de um animal sempre importará para o próprio animal independentemente da relação, sentimento ou da percepção que temos dele.
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