Categorias: História

Élisée Reclus e um olhar sobre a exploração animal no Brasil em 1893

Relato do geógrafo e anarquista serve para refutar afirmação de que já houve um bom passado para ser um animal explorado

No livro “A Anarquia e os Animais”, o geógrafo e anarquista francês Élisée Reclus discorre sobre uma viagem que fez ao Brasil em 1893. Em visita a uma propriedade rural, ele deparou-se com um bovino importado da Ilha de Jersey.

O animal, segundo Reclus, puxava uma corrente que passava através de suas narinas, mugindo, esfumaçando, cavucando a terra com seus cascos. “Apontando seus chifres, observando seu guardião com um olhar maligno.”

Há uma evidente crítica ao que não é aceito pelo animal, e que não é apenas domínio como exposição do animal (não basta explorá-lo, há também o desejo de expô-lo) – o controle de sua imponência e a submissão pela violência.

O desconforto do animal deveria ser encarado como um sinal de sua condição. É também emblemático da chegada do gado Jersey no Brasil naquela década, que hoje é um dos mais explorados na produção leiteira nacional. Foi a família real britânica que enviou os primeiros bovinos da raça.

O relato de Reclus é intrigante porque remete há 130 anos e há uma tendência a pensar que a realidade dos animais há não muito tempo poderia ser considerada “bem melhor” do que hoje.

Assim é relativizada a exploração com base nas mudanças no sistema de “produção”, como as associadas aos “avanços da industrialização”. Tudo isso pode ser refutado apenas considerando como animais eram mortos e descartados. Nunca houve um tempo bom para a exploração, não para as vítimas.

A descrição de Reclus também lembra a narrativa de Tolstói, publicada em “O Primeiro Passo”, de 1892, sobre os animais rurais explorados e enviados para a morte na região de Tula, na Rússia. Ou seja, o lugar não é o mesmo, mas isso significa que exploração e violência eram ausências? Há mais convergências do que diferenças.

Em alguns meios há uma constante romantização de um passado rural de exploração animal, como um “tempo perdido” que devesse ser resgatado. O que mudaria essa relativização em relação ao destino desses animais?

O relato de Reclus apresenta a condição do animal como propriedade, e que por isso permite questionar-nos o que pode ser prevalecente sobre esse animal se tudo que se volta para ele, no fim, é o mal dele.

Leia também “Reclus: “[Os animais] têm condições de nos agradar mais como amigos do que como carne”, “Reclus: Alimentação humana é baseada no massacre de animais” e “Como Tolstói influenciou o vegetarianismo na Rússia”.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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