É controverso e discutível quando as pessoas afirmam que “os animais eram mais bem tratados antigamente”, “ou em outros séculos”, como se “houvesse época boa para ser um animal não humano a ser explorado para uso e consumo”. Há uma visão romântica sobre a criação de animais para uso humano, mas faz sentido acreditar nisso?
A Revolução Industrial teve início na segunda metade do século XVIII (1760), mas o historiador Keith Thomas relata na mais recente edição do livro “O Homem e o Mundo Natural: Mudanças de Atitude em Relação às Plantas e aos Animais” que a forma usual de engordar porcos nos tempos elisabetanos (1558-1603), era, conforme registro da época, mantê-los “num cômodo tão estreito que não podem virar-se de lado […] o que os força a ficarem sempre deitados sobre o ventre” (p. 131).
“Depois de engordá-lo de forma adequada”, sugere uma receita citada por Thomas, “enfie uma faca num de seus flancos e deixe o sangue escorrer até que ele morra; [ou] açule-o gentilmente com cães amordaçados”. Era prática comum instigar cães contra esses animais no processo de abate.
Keith Thomas relata que, como disse um contemporâneo, “eles se alimentam com dor, deitam com dor e dormem dolorosamente”. As aves domésticas e de caça, segundo o historiador, eram muitas vezes criadas em escuridão e confinamento, ocasionalmente sendo também cegadas. O “galo castrado”, explicava-se, “é chamado capão, devendo-se empanturrá-lo em uma gaiola”.
Sobre os gansos, ele conta que dizia-se que ganhariam peso se as membranas de seus pés fossem pregadas ao chão; e era costume de donas de casa do século XVII cortarem as pernas de aves vivas, na crença de que isso faria sua carne mais tenra (p. 131-132).
Thomas também revela que em 1686, um homem chamado Robert Faltwell anunciou “uma nova invenção em que o gado […] se alimenta e bebe na mesma manjedoura e não se mexe até que esteja pronto para o abate”.
“O carneiro-de-chifres era especialmente criado para as mesas natalinas da alta e da pequena nobreza, sendo encerrado em pequenos compartimentos sem luz” (p. 132). Tudo isso, e mais, é sobre uma época que precede a industrialização. Pode-se dizer que houve tempo auspicioso de exploração animal para os animais?
A história da violência humana contra outros animais é marcada por práticas que levam a outras práticas, num ampliar da violência que facilita um olhar de não estranhamento em relação a posteriores violências. Basta haver um cenário de normalização para que haja mais normalização de arbitrariedades.
Em “O homem e o mundo natural”, o historiador Keith Thomas também relata que nos tempos elisabetanos os marinheiros que se deparavam com pinguins e outras aves marinhas, que ainda não tinham aprendido a evitar seres humanos, matavam esses animais indiscriminadamente (p. 388). Eram mortos apenas porque eram percebidos como alvos fáceis da violência humana – o “matar por matar”.
Outro exemplo de prática antropocêntrica, sendo permissiva da violência contra outras espécies, e ainda mais evidente em quem mais tinha condições de promover o mal contra esses animais, é exemplificado também com base na Idade Média, que precede o período elisabetano:
“A casa real de animais simbolizava o triunfo de seu senhor sobre o mundo da natureza. Alguns reis medievais chegavam a demonstrar sua ‘coragem’ lutando contra esses animais cativos” (p. 391).
Thomas frisa que posteriormente o zoológico se tornou símbolo de conquista colonial, assim como de riqueza, status e satisfação estética. Ou seja, o animal dominado para além da reafirmação do domínio sobre o seu corpo e vida – representando também um despojo territorial.
Ele também deixa claro que os animais corriam riscos com os zoológicos ambulantes, exemplificando que em Dublin, em 1682, quando um elefante morreu queimado, inviabilizando a continuidade de uma exposição lucrativa, o proprietário do zoológico decidiu colocar em exposição o que sobrou do animal morto (p. 392).
“Em Londres, em 1720, outro elefante morreu após ser mostrado em público, seus distúrbios tendo sido agravados pela grande quantidade de cerveja que os espectadores continuamente lhe ofereciam.”
Não apenas observar os animais, mas causar-lhes mal sempre que possível era prática que estendia-se de uma área à outra. Ornitólogos, por exemplo, até o século XIX costumavam matar os animais raros que encontravam para “estudar” (p. 396).
Referência
Thomas, Keith. O Homem e o Mundo Natural. Companhia das Letras (2021).
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…
O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…
A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…
Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…
Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…