Opinião

Embutidos, cruéis e nocivas misturas de animais mortos

Quem será que lutou mais pela vida? Qual demorou mais para morrer? Quem perdeu mais sangue? (Pintura: Atan)

Além de não serem saudáveis, e terem o consumo associado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com um maior risco de desenvolvimento de câncer e doenças cardíacas, os embutidos estão em uma categoria de produtos que costumo dizer que representa muito bem a crueldade imposta aos animais por meio do consumo.

Afinal, a composição de muitos embutidos pode ser baseada em carnes de diferentes animais submetidos à violência inerente ao abate. Exemplos? Mortadela que, assim como a linguiça paio, combina carne resultante da matança de bovinos e suínos. O salame também pode trazer a mesma mistura, assim como a salsicha.

Diversos embutidos contam ainda com partes que muitos consumidores desconhecem ou não reconhecem – como língua, coração, fígado, rins, peles e tendões. É fácil dificultar qualquer identificação quando se está diante de uma mistura homogeneizada e, quando industrializada, selecionada mecanicamente.

Pense por um momento no quanto é estranho você cortar uma ou duas fatias de um embutido e ponderar que ali há uma mistura de partes de vários e diferentes animais – carnes, órgãos e mais – que podem ter morrido na mesma data ou não, e que podem ter tentado resistir ao próprio fim de diferentes maneiras.

Quem será que lutou mais pela vida? Qual demorou mais para morrer? Quem perdeu mais sangue? O que seus olhos miravam enquanto eram degolados? Independente de reação, a despersonalização é evidenciada ainda no matadouro, quando, mais do que antes, animais deixam de ser vistos como animais.

Fragmentos de distintos corpos mortos

Na indústria da carne isso é intensificado quando qualquer associação com o que já foi uma vida torna-se vaga e imperceptível para muita gente. Por exemplo, não há como quantificar em duas fatias de um embutido partes de quantos animais estão ali. Tudo é processado e misturado a partir de um número pouco definível de animais que podem ou não ser da mesma espécie.

Isso na minha opinião reforça o quanto essa experiência de consumo é esquisita e dissociativa. Afinal, eram pedaços de criaturas que, sencientes, também tinham suas próprias necessidades e anseios. Mas, diferentes de nós, foram mortas e tiveram suas partes distribuídas por um número diverso de produtos.

Embutidos são misturas de fragmentos de corpos mortos, de carcaças, suprimidas em algo pequeno que representa a inclemente subjugação da vulnerabilidade não humana.

Esses produtos não existiriam sem que animais recebessem disparos no crânio visando inutilizar a capacidade cerebral como meio de insensibilização, eletronarcose (choque térmico) e degola, entre outras práticas e etapas que nunca vemos com bons olhos quando estendemos nossa empatia às vítimas. Sem dúvida, claras ações de violência, independente de como interpretamos a reação de um animal abatido para consumo.

Estamos sempre dispostos a matar para morrer

Admito que quando vejo linguiça toscana, logo penso na privação e morte do porco que a originou. A situação se repete em relação ao presunto obtido, por tradição, a partir da perna traseira de um suíno. Será que a perna dele não era importante para ele assim como a minha é para mim?

E a carne residual mecanicamente separada dos ossos dos frangos utilizada também na produção de salsicha? Não poupamos nada em relação a esses animais. E os nuggets ou empanados que reúnem fragmentos de tantas aves? E o peito de peru, que além da carne do animal, também traz na composição a sua própria pele?

Além da violência inerente à produção de “matéria-prima” que servirá à indústria da carne, e por extensão, à produção de embutidos, por que consumir algo que já foi comprovado ser prejudicial à nossa saúde e que não existiria sem a obliteração irrefletida de tantas vidas? Parece-me tão estranho e paradoxal que vejo a suposta “lógica” desse consumo da seguinte maneira: “Estamos sempre dispostos a matar para morrer…”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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