Há obras audiovisuais bem conhecidas que também servem para refletirmos sobre a contradição de como os animais são percebidos na ficção e tratados fora dela. Muito comum é a empatia de crianças e adultos pelos animais vistos em filmes e séries.
Em outros artigos, já citei a “Galinha Pintadinha”, por exemplo, e a contradição de gostar dos animais que o próprio espectador come e normalmente sem pensar que o animal estimado é da mesma espécie daquele que é consumido. Não é difícil reconhecer o quanto isso é estranho.
Um exemplo que considero válido também é o de Pumba, do filme “O Rei Leão” e da série “Timão e Pumba”. Pumba é um javali-africano (facocero-comum), um javali querido por crianças e por adultos. É a experiência de “conhecer” Pumba por meio de sua história, de suas atitudes e interesses que faz com que as pessoas gostem dele. Muitos dizem que Pumba é legal, divertido.
Uso o exemplo de Pumba porque ele, sendo um tipo de javali, evoca outro javali (sus-scrofa), da espécie do animal mais caçado no Brasil, e que teve sua caça ainda mais facilitada por meio de uma portaria publicada em 4 de abril de 2019, permitindo também o uso de cães e armas brancas. Portanto uma prática ainda mais cruel. Também não é difícil encontrar fotos desses animais expostos como se matá-los fosse um tipo de diversão.
Já me perguntei se entre as pessoas que gostam de Pumba não há também muitas pessoas que não veem problema na matança de javalis. Claro que alguém pode dizer que o javali é um “animal exótico”, que não é originário do Brasil. Mas é preciso levar em conta que esse javali jamais chegaria ao Brasil se não tivesse sido trazido por humanos. Sendo assim, é coerente adotar como primeira solução a matança desses animais porque não são nativos?
Se a responsabilidade primeira não é deles, matá-los não é ignorar a responsabilidade humana? Quando se fala em um animal como causador de um mal, esse mal é sempre uma concepção humana. E mais fácil ainda é reconhecer isso se o que o animal faz é apenas tentar sobreviver. Ele não escolhe prejudicar humanos ou gerar qualquer desequilíbrio.
A afirmação de que são invasores é equivocada e capciosa, se esses animais chegaram aqui trazidos por humanos. Mesmo que Pumba seja um personagem ficcional, ele não deixa de expressar interesses comuns a um animal, e tais interesses também são comuns aos reais javalis. Quero dizer, um javali também tem interesse em sobreviver, em sentir prazer, em não sofrer, em estabelecer relações sociais, em estar com os seus.
Chamá-lo de praga e matá-lo não considera nada disso, mas somente o interesse humano. Mas é justo matar animais como se neles não existisse qualquer interesse a ser levado em consideração? Quem causou mais desequilíbrio ecológico até hoje e mortandade de animais do que os humanos? Se refletirmos com empatia sobre a realidade do que fazemos, não podemos atribuir responsabilidade sobre nossas ações a outros animais; não podemos culpá-los.
A verdade é que culpa-los é sempre mais fácil. Há países em que quando esse tipo de situação surge a primeira ação não é matar esses animais, mas viabilizar estratégias de remanejamento e de castração. Se isso não é discutido no Brasil ou se é considerado impraticável, não tenho dúvida de que isso ocorre porque se coloca em primeiro lugar a conveniência, o fator econômico. Ou seja, é mais barato matá-los, permitir que os matem.
Mas o econômico deve realmente preponderar sobre a vida e em uma situação em que o mal surge primeiro como mal humano? É estranho reconhecer que a empatia que o espectador tem por Pumba pode ser nula em relação aos reais javalis. Afinal, mesmo quando não caçamos, mas não vemos problemas nesse tipo de matança, somos condescendentes com sua continuidade.
Podemos perceber também como políticos e oportunistas (ou políticos oportunistas) que visam se beneficiar com esse tipo de situação tendem a demonizar esses animais; referem-se a eles de uma forma extremamente pejorativa. Isso é tão estranho e sem sentido, porque os males atribuídos aos outros animais muitas vezes são construções discursivas que visam apenas promover uma visão da realidade que desconsidera completamente o não humano. E nesses casos nunca faz referência à responsabilidade humana em relação a esses animais.
Há nisso uma visão extremamente utilitarista da vida, mas que vale-se do ecológico por uma apropriação que seja favorável a uma lógica de domínio e destruição. Afinal, como não perceber dessa maneira se é sobre um animal visto como um mal, mas que foi trazido pelo ser humano e que agora deve ser morto como se sobre isso não houvesse responsabilidade humana?
Se a responsabilidade humana fosse adequadamente considerada, a primeira solução não seria permitir a matança. E como já observei antes, esse tipo de caça também virou uma espécie de diversão macabra para caçadores.
Leia também “Princesa Mononoke, um filme para refletir sobre o respeito pelos animais e pela natureza“, “Faz sentido ser ambientalista e defender a caça para consumo?” e “Caça aos javalis, um engodo a favor da crueldade“.
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