Categorias: Opinião

Por que falar em peru como carne e não como animal?

O peru deve ser “uma das carnes mais procuradas pelos consumidores para o Natal”, é afirmado em algumas matérias publicadas pela grande mídia. Ou seja, o “peru é uma carne”, o “peru não é um animal”. É o tipo de mensagem que isso passa.

É perceptível como a mídia reproduz a forçada exclusão do animal, referindo-se a ele sem levar a pensar no animal, porque o peru é excluído dessa consideração pela normalização do que é feito com ele. Mas posso dizer que os consumidores querem pensar no peru como animal e não como a carne desejada na mesa para o Natal?

A normalização culmina na não contestação e nas referências que são feitas aos animais sem favorecer qualquer possibilidade de mudança em relação ao fim deles. Isso ocorre também porque os próprios meios abordam esse assunto da forma que a maioria prefere e não somente como a indústria prefere.

Essa normalizada percepção em que o animal é preterido em relação à própria carne também é bastante explorada no comercial da Sadia nesta época do ano. O comercial não informa que mais de oito milhões de perus são mortos para a celebração do Natal, e isso a partir apenas de uma empresa – BRF.

Não mostra que o abate é feito introduzindo uma faca de dois gumes na garganta do peru, cortando artérias do pescoço enquanto o animal sangra até a morte com os pés presos na nória. Não mostra a resistência do peru. Não traz qualquer informação sobre sua vida que chega ao fim com dois meses de idade, quando poderia viver por dez anos.

Se os consumidores fossem colocados diante de oito milhões de perus degolados e amontoados, quantos diriam que é uma bela cena? Quantos diriam que ficaram maravilhados com o que viram?

A única diferença é que eles não são amontoados, não dessa forma. São separados e levados para casa, com o apelo estético das embalagens coloridas, para serem consumidos sem que sejam pensados como corpos há pouco privados da vida.

O peru é um desses animais que mesmo quando é exposto quase inteiro é como se não estivesse ali, como se não fosse um morto. Isso mostra como as aves são mais invisibilizadas do que os mamíferos mais consumidos.

No comercial da Sadia, ao final, o franguinho Lequetreque faz gestos e movimentos que visam estimular o consumidor a comer o peru. O quanto isso é irrealista?

Leia também “Veganos incomodam porque não veem animais como produtos” e “Por que o frango da Sadia te convida a comer animais?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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