Categorias: Opinião

É um erro esperar que problemas ambientais sejam resolvidos pelo governo e pela indústria

Foto: Marcio Isensee e Sá/Repórter Brasil

 

Ainda há uma crença predominante de que nada podemos fazer para mudar a realidade ambiental, a não ser cobrar governos e indústrias para que resolvam esse problema.

Claro que governos e indústrias também devem fazer sua parte, devem ser cobrados, mas esperar que os problemas ambientais se resolvam dessa forma, sem outro tipo de participação, é um erro. Se grandes impactos ambientais estão associados ao consumo, podemos fazer melhores escolhas para não favorecer essa realidade.

Podemos viver pelo exemplo das transformações que queremos. Podemos fazer o que estiver ao nosso alcance para estimular uma mudança positiva. É muito comum encontrar em publicações, por exemplo, sobre desmatamento, emissões de carbono e o impacto ambiental da agropecuária, pessoas ignorando que consumir carne e outros produtos de origem animal (leite, ovos, derivados…) favorecem essa realidade.

Muitas pessoas não olham para as próprias escolhas e refletem que há algo que pode ser feito para antagonizar isso. É mais fácil apenas esperar uma solução – que os outros resolvam isso. Sim, é importante que façam algo e que haja uma penalização para o mal ambiental causado. Mas se participamos do consumo que ajuda a financiar esse impacto, por que não avaliar se devemos dar continuidade a esse consumo?

Se deixamos de consumir o que causa um grande mal ambiental, não nos expressamos de forma mais enfática contra esse mal? Há sempre algo simbolicamente forte nessa oposição, que é diferente da condescendência tão comum encontrada quando achamos aceitável criticar algo, mas não vemos problema em continuar consumindo o que causa esse grande problema.

Hoje, com tantas informações disponíveis (claro que devemos compreender também que não chegam a todo mundo, mesmo com os avanços do acesso à internet), não há motivo apenas para esperar que as coisas mudem se a mudança pode ser impulsionada por mudanças de hábitos.

Eu jamais diria que todas as pessoas contribuem na mesma proporção para os mesmos impactos ambientais, até porque isso é impossível, mas quando expressamos oposição a algo, e vivemos essa oposição de uma forma justa, esse próprio viver quando conhecido por outros pode ser observado como uma alternativa à passividade ou à reivindicação que não envolve mudarmos também nós mesmos.

Isso também não é sobre achar que todas as transformações dependem somente de nossos hábitos, e sim que nossos hábitos, se ajudam a perpetuar o estado atual das coisas, também podem, se quisermos, ser grandes impulsionadores de mudanças. Não devemos nos ater somente ao que nos limita, mas ao que, a partir do que é possível para nós, podemos fazer em contrariedade a essa realidade de males ambientais.

É fácil encontrar críticas que expressam uma falta de confiança nas autoridades ou naqueles que deveriam fazer algo realmente efetivo para minimizar as consequências ambientais. Exatamente por isso também é surpreendente que essas pessoas que fazem esses apontamentos não chamem também a responsabilidade para si (se participam disso como consumidores) e adotem mudanças que não dependem somente das decisões dessas autoridades.

Se há uma crença de que eles não estão fazendo o que deveriam fazer, por que não fazemos o que podemos e que não depende deles? Precisamos também superar a crença de que a preocupação ambiental deve continuar sendo uma questão secundária, usando a justificativa de que a maioria da população tem questões mais importantes com que se preocupar.

Afinal, um meio ambiente prejudicado, além de ser ruim para a vida silvestre, afeta a qualidade de vida da população humana e determina o tipo de futuro que teremos. Quem deseja um futuro de piores impactos ambientais, de temperaturas mais extremas, de maiores períodos de seca, de pior qualidade de vida? O futuro não parece auspicioso se apenas esperarmos pelas mudanças das quais não vemos problema em nos abster.

Leia também “É coerente defender o meio ambiente e comer carne?“, “Faz sentido ser ambientalista e defender a caça para consumo?“, “No século 18, naturalista condenou a tirania humana contra os animais” e “Em 1813, poeta Percy Shelley alertou sobre impacto ambiental da carne“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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