Pequenas Narrativas

Há mais animais nos açougues, mas ninguém está contando

Em maioria, bovinos, suínos e frangos – e partes diferentes que não reconheceu (Ilustrações: Luke Chueh)

Tentava esvaziar a mente pensando no não pensar. Ouvia sons que logo se desvaneciam. Saiu de casa. Caminhando pela calçada, contava os animais que encontrava nas ruas e na entrada das casas.

Parou em frente a um açougue com vitrine iluminada e observou a diversidade de carnes. Ventinho gelado atravessava por baixo da porta adormecendo os dedos maiores que saltavam pelo par de chinelos. Voltou a pensar. Ficou imaginando quantas histórias haviam ali. “Quantos animais?”, monologou, vencido pela curiosidade numérica.

Em maioria, bovinos, suínos e frangos – e partes diferentes que não reconheceu. Prestou atenção nos pedaços pendurados, nos embutidos…“Um açougue pode parecer um lugar estranho para visitar animais, mas não deixa de ser um lugar onde se encontra animais. Não estão vivos, mas não deixam de estar ali, fisicamente”, refletiu.

Enquanto observava a cabeça de um leitão, tentou imaginar o que o animal viu e viveu antes de chegar ali. “Todo mundo tem uma história…” Não sentia tristeza, mas estranheza. Fantasiou a própria cabeça pálida e gelada exposta na vitrine.

“O que fariam para conservá-la? E a reação das pessoas? Quando não há cabeça, há uma crença mais forte de que não há uma história…”, monologou, mirando um pernil. Pensando nos prazeres da dissociação, retornou para casa com uma suspeita – “Há mais animais nos açougues…muito mais, mas ninguém está contando.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Haverá sempre mais animais nos açougues na mesma proporção em que estiverem ausentes do nosso coração. O lugar sagrado do nosso cão e gato, do nosso bebê, do nosso pai e mãe, dos amigos mais queridos, nesse mesmo espaço quente e iluminado é que deveriam co habitar também os animais anônimos, que deveriam ser amados ao invés de consumidos, se fossemos humanos racionais superiores e bons.

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