Categorias: Pequenas Narrativas

Há muito nos olhos de um animal pendurado para morrer

Foto: Tommaso Ausili

Lembro quando disseste que há muito nos olhos de um animal pendurado para morrer – como se sua vida ali se concentrasse. Há sempre um corpo, que já não consegue se mover, porque seu deixou de ser. Mas e quando foi? Baralhado seria afirmar que nunca?

Nessa miséria implicada ao outro, quem tem um corpo? O que é um corpo? São matérias emprestadas consoante dominadas? Se os anseios seus, que também manifestam-se como anseios do próprio corpo, são afugentados, que posso dizer sobre o domínio que tens do corpo?

Quando falam-me do nascimento dum animal, trazido ao mundo para deleite humano, reconheço que é criatura de corpo emprestado, de vida avariada. Imagino-a sentada dentro de si, sem controle sobre si e restando-a assistir.

Você não apenas assiste, sente, porque o corpo ainda é você. Mas quem é você se não reconhecem seu corpo como seu? Então você não é você, embora seja, e sem poder ser, porque impõem-te anulação.

Nas lazeiras do cotidiano, como resistir à sujeição? Penso numa coleção de estranhamentos e sofrimentos, dos mais comuns aos mais viscerosos, que podem ser os dois em tautocronia.

Daqui vejo os olhos dum animal vencido pela nossa derrota. Questiono se os olhos cabem num corpo que pode caber nos olhos. Os nossos cabem o tempo todo, nos de nossas vítimas e mais – foi o que disseste.

Mas quem considera a prisão que pode ser o próprio corpo? Veem um animal confinado e creem que o confinamento resume-se ao espaço físico. Submeter um animal aos nossos desejos é confiná-lo dentro de si. E qual é o tamanho dessa prisão? Quais são as especificações? Quem pode medi-la?

Ainda há movimento de olhos, sempre há, mesmo num momento em que resta somente isso num corpo já invalidado. “Então é o fim dele, que também é parte do nosso.”

Ter um corpo sem ter não anula o sofrer, muito pelo contrário. E quando usam a inexpressão física, sua neutralização, como exemplo capcioso de ausência? “Então celebram o vazio carnoso de um corpo que foi habitado por quem não viveu…”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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