Quando a interseccionalidade vira identidade: um desvio no ativismo vegano

Uma análise sobre as consequências de veganos adotarem a interseccionalidade como identidade e não como ferramenta

Quando a interseccionalidade vira identidade: um desvio no ativismo vegano

No livro “Interseccionalidade”, publicado no Brasil em 2021, as pesquisadoras Patricia Hill Collins e Sirma Bilge tratam a interseccionalidade como ela é – uma ferramenta de análise de opressões. Seu foco é desvendar como sistemas de poder se interconectam, criando experiências específicas de opressão e privilégio. A pergunta central é sobre “como isso opera?” e não sobre “quem eu sou?”

Seguindo a própria tradição da interseccionalidade, elas não tratam a relação entre diferentes formas de opressão como um rótulo a ser adotado, uma identidade para ser chamada de sua. Não é sobre “o ser” e sim sobre “o fazer”.

Logo, essa transição do “fazer” para o “ser” surge como um desvio não reconhecido dentro da própria interseccionalidade. O próprio dizer que se é interseccional pode soar estranho e até performático quando a análise acaba dando lugar à primazia da identidade.

E é nesse ponto que os conflitos podem ser desencadeados; porque se usa a identidade para policiar, julgar o outro, deslocando a interseccionalidade de seu terreno promissor – analisar o que as opressões têm em comum e como elas operam estruturalmente.

Interseccionalidade não surge para atacar quem não é interseccional

A interseccionalidade não surge para atacar quem não é interseccional e porque ela não existe para determinar uma identidade interseccional. Ainda assim, mesmo no veganismo há quem faça uma leitura da interseccionalidade como uma espécie de “forte identidade”, que supera “o simplismo” de ser “apenas vegano”.

Quando essa ferramenta vira um adjetivo identitário (“sou interseccional”), a complexidade da análise cede lugar a um selo de autenticidade moral, que pode ser usado para hierarquizar ativistas e policiar fronteiras dentro dos movimentos. Como consequência, isso pode culminar em uma busca por reconhecimento da própria posição como a “mais consciente” ou “mais oprimida”. Isso também cria fissuras que dificultam estratégias de coalizão.

A interseccionalidade é um verbo, não um substantivo identitário. Ela surge para ser uma prática contínua de questionamento – não podendo ter um fim como “identidade interseccional”, já que se trata de uma práxis política de transversalidade e trocas. Portanto, podemos reforçar, é sobre o “fazer” e não sobre o “ser”. Quando ocorre o contrário, temos o efeito de uma complexidade capturada por um ativismo simplificador, e que pode surgir também como sinalizador de virtude.

Muitas formas de ativismo simplificado operam sob a ilusão de que é possível uma posição política ou identidade “pura”, livre de contradições. A interseccionalidade, em sua forma genuína, nega essa pureza. Ela mostra como estamos enredados em redes de opressão e privilégios de maneiras diferentes. Capturada pelo ativismo da simplificação, ela é invertida e vira o critério para medir a pureza alheia.

Logo, seria equivocado reduzir um pensamento sistêmico (que exige humildade intelectual e engajamento contínuo) a um marcador identitário (que oferece conforto moral e clareza instantânea ao custo de um reducionismo conceitual).

Manter a complexidade é um ato político radical em um mundo que pede simplificações. É lembrar que a interseccionalidade não é um destino onde se chega (“agora sou”), mas um modo de caminhar, um “fazer” crítico, constante e inevitavelmente imperfeito.

Ser interseccional como declaração de virtude e a sinalização antropocêntrica

Há uma crença ingênua de que, ao adotar o rótulo “interseccional”, uma pessoa se torna melhor; transcende os próprios sistemas de poder que a teoria tenta desmantelar.

Ao declarar-se “interseccional”, o indivíduo pode acreditar que alcançou um mapa completo das opressões. É como se dissesse: “Eu vejo todas as matrizes de dominação, portanto, não estou preso em nenhuma.” Isso ignora o princípio básico da teoria: todos estamos dentro do sistema, apenas em posições diferentes. A interseccionalidade deve gerar humildade, não arrogância.

Quando a interseccionalidade vira um rótulo identitário (“eu sou interseccional”), ela corre o risco de se tornar uma declaração de virtude em vez de um guia para a ação crítica. Também pode dar a ideia de um ponto de chegada: “Atingi a interseccionalidade”, o que estagna a análise.

Por outro lado, pensadoras como Kimberlé Crenshaw, Patricia Hill Collins, Sirma Bilge e Angela Davis a entendem como um modo de enxergar como sistemas de poder se interligam para criar modos específicos de opressão e privilégio. Logo, é um convite constante à autocrítica e a análise contextual. É também um processo, não um estado – o que se faz, se pratica, sempre de forma imperfeita e progressiva, e não o que se é.

Algo que também problematizei em outro artigo publicado na Vegazeta é que uma pessoa pode dizer que é vegana interseccional e, na prática, replicar a hierarquia hegemônica que privilegia causas humanas sobre causas animais – como dedicar a maior parte de sua energia a uma causa humana ou mais de uma (e que podem receber atenção exatamente porque são sobre o que a afeta diretamente ou porque são socialmente mais validadas) enquanto julga quem optou por priorizar o combate ao especismo (alteridade radical – sobre o outro, e que tem menos aceitação social).

Isso ocorre também porque, mesmo em espaços que se dizem interseccionais, o antropocentrismo frequentemente permanece como um ponto cego. Por exemplo, exige-se que o ativista vegano “prove” sua interseccionalidade aderindo a causas humanas, mas raramente se exige que um ativista antirracista “prove” sua interseccionalidade aderindo explicitamente ao antiespecismo. Essa assimetria de exigência é a prova material do especismo residual. A ferramenta é aplicada de forma seletiva, reforçando, e não desmantelando, a hierarquia.

Antiespecismo, hierarquias de opressão e julgamentos individuais 

A verdadeira medida da interseccionalidade não está no que se diz, mas no que se faz. Está na análise concreta das próprias prioridades e na coragem de desafiar as hierarquias de opressão mesmo dentro dos movimentos progressistas.

Portanto, a pessoa que, após uma análise séria, decide focar a maior parte de sua energia no antiespecismo porque o identifica como a opressão mais negligenciada e estrutural (sobre isso, recomendo a leitura de “O especismo é a raiz das opressões” e “Não há causa mais urgente do que a vegana“), está agindo de forma mais verdadeira e eficaz do que aquela que, para ostentar o rótulo, distribui seu esforço superficialmente, mas sempre dentro dos limites considerados “aceitáveis” pela hegemonia cultural antropocêntrica.

Além disso, falar o jargão correto, citar as teóricas certas e denunciar publicamente quem não o faz torna-se, para alguns, mais importante do que o trabalho orgânico, muitas vezes menos glamoroso, de educar, construir alternativas e desafiar as estruturas na prática. O rótulo protege a pessoa do escrutínio sobre a substância de suas ações e prioridades reais.

Além disso, notamos um mecanismo de fechamento identitário quando se usa o termo “interseccional” em oposição a outros – em um sentido de “não sê-lo” como “ser menos”. E a condenação de não interseccionais também pode funcionar como sinalização não apenas de virtude como de “lealdade a um grupo”.

Isso ignora que a interseccionalidade não existe para julgar identidades individuais. Ela é, fundamentalmente, um convite à complexidade, como em casos em que uma situação é vista como complexa o suficiente para que seja analisada a partir de mais de um eixo de opressão. E sendo um alerta contra a exclusão, já que a interseccionalidade surge como um reconhecimento de que havia um processo de exclusão humana em determinadas lutas humanas (como a de mulheres negras na teoria feminista branca e na análise antirracista masculina), é uma ferramenta para incluir, não para excluir indivíduos do “círculo virtuoso”. Enfim, sua prioridade são sistemas e estruturas, não supostas “falhas” percebidas na análise individual de cada ativista.

Portanto, quando vemos a “depreciação de quem não abraça a interseccionalidade”, estamos testemunhando a ferramenta sendo usada contra sua própria finalidade. Está sendo usada para apagar nuances, para silenciar vozes focadas (e potencialmente mais eficazes em suas áreas) e para impor uma linha partidária, em vez de iluminar as conexões entre as lutas.

O especismo como opressão radicalmente negligenciada e as hierarquias de ativismo 

A pessoa que foca no veganismo e é depreciada por não ser “interseccional” ou “suficientemente interseccional” está, na verdade, no centro de uma contradição reveladora. Isso porque ela está aplicando a essência da ferramenta ao priorizar uma opressão radicalmente negligenciada (o especismo) e lançando luz sobre essa negligência. E, paradoxalmente, pode estar sendo julgada por quem transformou a ferramenta em uma identidade usada para reforçar a própria hegemonia cultural (antropocêntrica) que deveria desafiar.

A verdadeira interseccionalidade exige humildade. Exige também reconhecer que é impossível para qualquer indivíduo dominar todas as lutas, entender totalmente todas as opressões e agir perfeitamente em todas as frentes; e que na prática ativista ele sempre priorizará uma ou algumas em detrimento de outras – o que deveria servir como antídoto contra o julgamento.

Infelizmente, quem vai pelo caminho fácil do julgamento substitui essa humildade por uma postura de magistrado moral – o que é uma consequência da captura de ferramentas críticas complexas por uma cultura de identidade e performance que privilegia a declaração sobre a ação, e o julgamento sobre a solidariedade. É válido frisar que a meta é desmantelar hierarquias, não criar novas hierarquias de ativismo.

É importante lembrar que o especismo como opressão ou eixo de análises das estruturas de poder não faz parte do núcleo fundador da interseccionalidade. Trata-se de uma consideração posterior. Inclusive Collins e Bilge fazem essa observação no livro “Interseccionalidade”, quando apontam que o especismo foi incluído nos estudos críticos sobre justiça ambiental – junto com racismo, heteropatriarquia, classismo, nativismo, capacitismo, etarismo.

Assim, o especismo é uma “questão subsequente” e isso reflete, de modo revelador, o quão profundamente enraizado está o antropocentrismo. Portanto, é uma questão que não foi universalizada na interseccionalidade; já que ainda é tratada como podendo ou não ser incluída nas discussões, dependendo de quem são os atores e quais são suas prioridades.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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