Jumentos, uma vida de exploração que agora termina no matadouro

Hoje, caminha-se para um novo nível de objetificação desnecessária de mais uma espécie animal

O jumento já não é apenas um animal explorado como meio de mão de obra, mas também reduzido a fonte de alimento (Foto: Reprodução)

Considerado um dos símbolos da região Nordeste, os jumentos foram trazidos para o Brasil em 1534, na expedição de Martim Afonso de Souza que viu nesses animais uma rara resistência. Assim que chegaram à Capitânia de São Vicente, não demorou para que o rebanho se multiplicasse.

Em 1810, em Entre Rios de Minas, em Minas Gerais, o padre Manuel Maria Torquato de Almeida achou que seria uma boa ideia cruzar os asininos de origem italiana e egípcia com o objetivo de garantir o “melhoramento genético” dos animais na Fazenda Curtume. Entre os primeiros jumentos pêga que nasceram estavam aqueles que foram enviados para a fazenda Engenho Grande dos Cataguases em Lagoa Dourada, também em Minas Gerais.

No local, o fazendeiro Eduardo José de Rezende ampliou o rebanho e encarregou os filhos de fazerem o mesmo. Mais tarde, em 15 de agosto de 1947, surgiu a Associação Brasileira de Criadores de Jumento Pêga, visando garantir o desenvolvimento da “raça brasileira” com finalidade comercial. Ou seja, para usá-los principalmente em trabalhos pesados no campo, como animal de carga e tração.

Naquele tempo, o que chamou a atenção foi a capacidade dos jumentos de conviverem pacificamente com animais das mais diferentes espécies. Na realidade, não apenas conviviam com eles como os defendiam em situação de perigo ou iminência de violência. Por isso, passaram a ser identificados como animais inteligentes, sensíveis, companheiros e dóceis – o que também facilitava a sua exploração.

Os jumentos já se diferenciavam de outros animais por terem características rústicas e típicas dos animais do deserto, como a capacidade de sobreviver com uma alimentação escasseada. Inclusive foi isso que permitiu que os jumentos se tornassem tão populares no norte de Minas e no Nordeste brasileiro. Mas o que era uma vantagem para o ser humano, sempre se apresentou como uma desvantagem para o animal.

Em 1977, Chico Buarque já cantava sobre a cruel realidade servil desse animal na música “O Jumento”: “Jumento não é o grande malandro da praça. Trabalha, trabalha de graça. Não agrada ninguém. Nem nome não tem…” Uma prova de que o valor atribuído ao jumento normalmente se resume à sua força é que os animais mais fortes podem não ter preço, mas aqueles que já apresentam algum tipo de desgaste, não raramente são abandonados, abatidos ou comercializados por não mais do que alguns reais.

Reflexo dessa realidade foi divulgado pelo portal G1 no dia 9 de julho de 2017, revelando que de janeiro a junho do ano passado, só o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) do Ceará recolheu 6655 animais abandonados. Desse total, 90% eram jumentos. Segundo a matéria, são consequências dos avanços tecnológicos, modernização dos meios de produção e da postulação de que já não há espaço para a inclusão dos jumentos nas atividades domésticas e econômicas.

Segundo ativistas dos direitos animais, isso acontece frequentemente porque se um animal não pode gerar lucro ou benefício ao ser humano, ele passa a ser qualificado como inútil em nossa sociedade, o que vai na contramão da defesa do bem-estar animal, considerando também que esses animais que se popularizaram pelo Nordeste e norte de Minas não existiriam se não fosse a intervenção humana de séculos atrás. Isso chama a atenção para a negligência em garantir-lhes o mínimo de qualidade de vida até os seus últimos dias.

Sendo assim, ignora-se que jumentos são animais que vivem em média 25 anos, mas que em determinadas condições podem chegar a 40 anos, o que significa que, assim como animais de outras espécies, também envelhecem, perdem o seu vigor e necessitam de cuidados específicos. Nesse caso, o problema apontado por organizações brasileiras de defesa dos direitos animais e também pela Donkey Sanctuary, do Reino Unido, é de que hoje, mais do que nunca, o Brasil está ampliando a crença, fundamentada na banalização da vida não humana, de que a partir do momento que um jumento se torna desnecessário como “instrumento de trabalho” ou se torna “fraco”, não há problema em abandoná-lo ou vendê-lo para algum matadouro.

Exemplo disso é que no dia 5 de setembro a revista Globo Rural denunciou a situação vivida pelos jumentos, ao relatar que muitos asininos foram encontrados mortos e em estado de decomposição dentro e às margens do Rio Catolé Grande, em Itapetinga, na Bahia. Segundo informações da Ong SOS Animais, os jumentos estavam desnutridos e tinham sinais de maus-tratos e mutilações. “O ‘cemitério de jumentos’ estava em um terreno próximo ao frigorífico Sudoeste, que obteve autorização para abater jumentos este ano. A carne e o couro dos animais são exportados para a China, onde os produtos são encaminhados para as indústrias farmacêuticas e de cosméticos”, denunciou a reportagem.

Em 11 de setembro, o portal G1 relatou que uma fazenda de criação de jumentos em Itapetinga, na Bahia, foi interditada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente após denúncias. A investigação em parceria entre Polícia Civil e Ministério Público Estadual mostrou que 200 jumentos, vítimas de maus-tratos, morreram no local: “Os animais pertencem à empresa chinesa Cuifeng Lin e são levados para o local antes de serem encaminhados para um frigorífico, onde são abatidos. Em seguida, a carne é exportada para o Vietnã.”

Ou seja, independente de circunstância e de tratamento, o jumento já não é apenas um animal explorado como meio de mão de obra, mas também reduzido a fonte de alimento, e como denunciado pela matéria, passível de uma nova categoria de maus-tratos. Não há um número preciso da quantidade de jumentos que vivem no Brasil.

Porém, o consumo de sua carne não faz parte dos hábitos dos moradores de nenhum estado ou cidade do Brasil, como endossado também pelo projeto de lei 7264/2017, de autoria do deputado federal Benjamin Maranhão (SD-PB); e isso por uma justificativa simples – a relação de  familiaridade e consideração que se perpetuou culturalmente e simbolicamente em relação aos jumentos a partir do século 16.

No entanto, a China que mata cerca de 1,5 milhão de jumentos por ano, seja para o consumo de carne ou para a utilização na medicina chinesa, tem dialogado com países como o Brasil, onde a criação de jumentos é uma tradição, para intensificar a exportação desses animais com finalidade de abate.

“Milhões de asininos em todo o mundo estão sendo mortos para alimentar a demanda por um remédio tradicional na China. Trata-se do ejiao, uma gelatina obtida a partir da pele de jumentos e de burros após imersão e cozimento”, informa a organização britânica Donkey Sanctuary, acrescentando que a produção tem se concentrado principalmente nas províncias de Jiangsu, Zhejiang e Shandong. O consumo não é apenas interno, já que os chineses também vendem esses produtos para outros países asiáticos.

Há uma crença de que a gelatina de pele de jumento pode curar doenças sanguíneas, promover antienvelhecimento, aumentar a libido, evitar a infertilidade e o aborto espontâneo. Curiosamente, é a mesma justificativa utilizada na defesa do consumo de carne de cachorro na China e em outros países asiáticos, embora não exista nenhuma comprovação científica – o que tem contribuído com o surgimento de leis e projetos de lei que visam banir a prática.

Um ponto também levantado pelo deputado federal Benjamin Maranhão (SD-PB), no projeto de lei 7264/2017, é que o abate e a exportação de jumentos não são nem mesmo economicamente vantajosos porque o preço da carne de asinino não se equipara a de outros animais – o que significa que tal comércio se enquadra mais como uma tentativa de se “livrar de um problema” do que de criar uma alternativa econômica.

Além disso, como destacado no PL, o abate de jumentos é rechaçado por ativistas dos direitos animais, ambientalistas, entidades de classe como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pela população em geral. O argumento é que se trata de um ato de crueldade contra esses animais que, por séculos, não foram vistos como alimentos. Mais do que isso, são considerados um símbolo nordestino e personagens de histórias, lendas e músicas da região.

E não são apenas os brasileiros que se opõem a essa prática. No dia 24 de maio de 2012, a ex-atriz e ativistas dos direitos animais Brigitte Bardot enviou uma carta a então presidente Dilma Rousseff pedindo pelo fim do “genocídio de jumentos” exportados para a China para serem usados na indústria de alimentos e cosméticos. “Eu, que tanto amei o Brasil e que deixei uma marca inapagável na minha passagem por Búzios, fico triste em ver que esse país colabora com a China para matar, a cada ano, 300 mil burros”, criticou.

A situação dos jumentos e dos burros é preocupante em todo o mundo. A Donkey Sanctuary cita que atualmente, de um total de 44 milhões de asininos, milhões já estão sendo abatidos porque estão perdendo o seu espaço enquanto personagens que, embora explorados, antes pelo menos eram vistos como parte de um contexto familiar e social, mesmo que limitado. Hoje, com a possibilidade de destruição dessa identidade ao reduzir os jumentos a fonte de alimentos e produtos, caminha-se para um novo nível de objetificação desnecessária de mais uma espécie animal.

Referências

Costa, Leopoldo. Jumentos: História e Origem. Stravaganza (2011).

Freitas, Cinthia. Símbolo do Nordeste, jumentos sofrem abandono crescente e são risco de acidente nas estradas. Portal G1 (9 de julho de 2017).

Fabro, Nathalia. Polícia encontra “cemitério de jumentos” no interior da Bahia. Revista Globo Rural (5 de setembro de 2018)

TV Sudoeste. Com 200 jumentos mortos por maus-tratos, fazenda de criação para exportação para o Vietnã é interditada na BA (11 de setembro de 2018)

Agência EFE. Último Segundo. Brigitte Bardot pede que Dilma acabe com “genocídio de burros” (24 de maio de 2012).

Maranhão, Benjamin. Projeto de Lei (PDL) 7264/2017. Câmara dos Deputados.  

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