Opinião

Matança de frangos cresce no Brasil durante a pandemia

Em apenas 90 dias, Brasil matou 1,51 bilhão de frangos para consumo (Foto: Food Safety Brazil)

De acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mesmo com a pandemia de covid-19, o Brasil registrou crescimento de 7% na matança de frangos para consumo no terceiro trimestre de 2020 em comparação com o trimestre anterior.

No comparativo com 2019, isso significa aumento de 2,8%. Além disso, em uma análise que considera os últimos 23 anos, julho de 2020 despontou como maior recordista dos meses de julho desde 1997, sendo o que mais contribuiu para a morte de 1,51 bilhão de frangos para consumo no terceiro trimestre.

Animais mais abatidos

Essa alta revelou aumento de parcela da população que optou por consumir carne de frango em vez de bovina em decorrência do preço. Nesse caso, uma consequência comum é elevar o abate de animais que terão suas carnes vendidas com um custo menor para o consumidor final. Ou seja, em tempos de crise, as espécies classificadas pelo mercado como “mais baratas” são mais sacrificadas do que outras.

Não é novidade que não apenas nesta pandemia de covid-19, mas em qualquer período de crise econômica ou de redução do poder de compra, é comum os frangos serem os animais mais abatidos para atender predileções alimentares baseadas na crença de que precisamos de carne como fonte de proteínas.

No entanto, é válido considerar que sim, realmente necessitamos de proteínas, mas isso não significa que deva ser proveniente de animais. Afinal, o reino vegetal oferece grande diversidade entre as leguminosas e, sabendo o que comer ou onde procurar, a custos bem menores do que da maioria das mais consumidas proteínas de origem animal.

Supervalorização e sustentabilidade

Precisamos ponderar também que além da crueldade envolvida no abate de animais, assim como a inequívoca supervalorização do consumo de carne, há também várias implicações para o meio ambiente. Afinal criar animais para consumo demanda espaço, assim como produzir ração, e isso requer mais áreas desmatadas e muito mais recursos naturais do que o cultivo de leguminosas para alimentar humanos.

Não é à toa que um estudo recente da Universidade de Augsburgo, na Alemanha, revelou que se os custos ambientais dos alimentos de origem animal viessem embutidos nos preços, o número de pessoas que poderiam comprá-los seria bem menor do que o atual.

Vale considerar também que criar animais confinados e amontoados com fins de abate não parece algo sensato em um mundo enfrentando um cenário de pandemias em decorrência de doenças zoonóticas, ou seja, transmitidas de animais para humanos. Sendo assim, não seria melhor repensar esse consumo não essencial?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

2 semanas ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

3 semanas ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

4 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

1 mês ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

2 meses ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 meses ago