Categorias: Pequenas Narrativas

Não quis mais morte no prato

Um novilho, um porco e um frango – foi o que viu no prato. Não pensou na violência, somente na existência – que já não é (Ilustração: Sébastien Thibault)

Bife no prato e ausência de vontade. Observava carne que já não era carne. Com olhos fixos no formato, viu o que não viu – antes. Gordura era como espaço vazio, mas medonho, de desligamento de si. Pensou em membros, articulações, estranhas e dolorosas divisões. E todo o resto, o que era?

“Animais e suas vontades que se vão para o triunfo da minha, que já não é triunfo porque já não a tenho. E se tivesse e soubesse o que sei, até onde chegaria minha culpa da qual já não poderia negar ou dissociar claro entendimento? Quando sabemos bem das coisas, onde podemos refugiar nossa indiferença e sobrançaria?”

Dizem que há um baú de apatia dentro da consciência de cada um. Todos têm chaves que abrigam-se noutro espaço da consciência e que só pode ser alcançado por extensão do que é menos de nós e mais dos outros.

“Quantas vezes comi bife pensando que é apenas bife, mas nada é somente o que definimos pelo hábito ou pela mecanicidade da vontade, que vem também com treino e regularidade. Afinal, comer o que se come é também exercício que é praticado sem ser questionado.”

Um novilho, um porco e um frango – foi o que viu no prato. Não pensou na violência, somente na existência – que já não é. “Não preciso imaginar agora derramamento de sangue. Sei apenas que estão diante de mim sem estar. Coisas que nunca considerei antes correm a mil pela minha mente.”

Pedaço de carne ao alcance das mãos e da boca é parte de alguém que partiu em jejum – concluiu. “O que mais teriam gostado de comer sem morrer? Onde gostariam de estar?” A carne que não despertava-lhe apetite já parecia um mapa e então um campo, onde viu animais vagueando.

“Não é o que é, e sim o que deveria ser que minha consciência constrói agora. E por que não ser? Só vejo razão para ser, porque, onde não há apetite pelas coisas da violência e dominação, não há motivo para não imaginar que boas mudanças virão. E não chamo isso de otimismo, mas constatação, se logo ponderamos que não somos apenas nós que mudamos.”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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