Nunca mais comeu peru no Natal. Em nenhum dia. Bandejas, embalagens a vácuo e rolos fazem parecer que não há nada de errado. Que tal um embutido? Peito de peru? Não. Sabia que os animais morriam. Como achar que não? Carne só pode vir da matança. Mas dava-se o direito de não pensar a respeito para não interferir no paladar.
Um dia foi com o avô visitar um conhecido. Não sabiam que criava perus e o conhecido achou que seria boa ideia mostrar, orgulhoso, como funcionava “a criação”. Para facilitar a engorda, mantinha os animais em gaiolas. Achava melhor assim. Os perus ficavam ali até serem vendidos.
Olhou para a curta distância da terra. Aqueles perus não conheciam a terra, não com os pés, só com os olhos. Deixavam arranhões no fundo da gaiola, e arranhões sobre os mesmos arranhões. Aos poucos, desnivelavam o fundo.
Quando se estressavam, se atacavam. Descobriu isso depois, não na visita, tentando entender o que acontecia. Por que o homem falaria? Penas faltando, peito estranhamente avermelhado, marcas de troca de violências.
Achou que os animais não brigavam. Não era uma briga, era uma reação a uma ausência de vida. Desespero. Estresse. Impossibilidade. Pouco se mexiam no espaço. Outros chegavam. Imaginou como seria viver curvado.
É uma obrigação ficar sentado. Não ficar é desafiar e sofrer por tentar. Economia de material. Pouco tempo pra viver. É só morrer. Logo chega. Depois pensou na faca na garganta. Que sentido tem esse viver?
Sobreviver ali pode ser chamado de vitória. Mas que vitória? Leu que perus também sonham. Imaginou se para viver ali era preciso sonhar o tempo todo. Os perus olhavam. Ele via nos pares de olhos o mundo que não sentiam. Dele, não participariam.
Talvez toquem a terra se caírem da gaiola antes de serem enviados para a morte. Talvez seja um sonho constante. Sim, acho que sim, se perus sonham. Os que viu já não estão aqui. Os que vieram depois também não. Muitos outros também não. Depois pensou que aquilo era minúsculo perto da dimensão do que é o peru e do que fazem com o peru.
Não se pode dizer que o peru vive. Por que tanto desejo em esfaqueá-lo? Espere até o Natal, ou não.
Leia também “Por que falar em peru como carne e não como animal?“, “A miséria dos animais no Natal” e “Sobre a crueldade de comer cordeiro no Natal“.
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Já espliciyado acima como Clarice.