
No Natal, tentou contar quantos animais estavam sobre a mesa. Era difícil dizer, porque dois estavam inteiros e outros não. Como imaginar quantos corpos podem ser formados a partir de pedaços? Não é normalmente assim?
Tentou idear, sem concluir. Nem os inteiros nem os fracionados eram percebidos como se estivessem sobre a mesa. Quando alguém falava em algum animal, ninguém pensava no animal, porque não era para pensar no animal, mas sim no que era desejoso sobre o que foi reduzido o animal.
Ouvia as pessoas desejando o melhor umas às outras e se perguntou por que não desejavam também para os animais sobre a mesa. É justa essa exclusão? “A morte está bem posta, duma forma tão visceral e ao mesmo tempo tão invisível”, disse, sem que os outros ouvissem porque estavam entretidos com garfos e facas.
As mastigadas e engolidas davam o tom contínuo da invisibilidade. “Não é o Natal uma data emblemática da enormidade de uma violência não reconhecida como violência?”, disse outra vez, sem ser ouvido. “Pode o discurso de empatia e compaixão ser um exercício de violência?”, continuou.
Enquanto sobrava metade de um leitãozinho, olhou para os buracos que na noite anterior ainda eram ocupados por olhos. Aquele corpo parcialmente destruído gerou um incômodo sobremaneira que sentiu a saliva amarga.
Observou outra vez o vazio dos olhos e pensou em como aquele vazio refletia um outro vazio, humano, da indiferença em relação ao que é o outro, e o que sobre ele era importante para ele. “O quanto é cruel um viver para brutalmente morrer. Não é brutal toda morte desejada na simultaneidade do que é desnecessário?”
Havia marcas no pequeno corpo que ganhou casca tostada. “Como se machucou?” Não veio resposta, só sons de garfos e facas; de engolidas.
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