De madrugada, voltando para casa, parou em frente a um açougue desativado e observou preso à marquise um pedaço de carne iluminado por uma vela.
Notou que a carne ganhou uma película que a impedia de ser assada, embora exalasse cheiro estranho e desagradável. Concluiu que uma ou várias pessoas trocaram as velas, porque não parecia ser a primeira nem a última. “Que curiosa engenhosidade…”
Quanto mais tempo ficava ali, mais o cheiro se acentuava. Sentiu desconforto e leve enjoo. Mas era algo que não o repelia, o intrigava. “Se planeja comer carne e passa por aqui, não acho que a comerá depois. Será a intenção?”
Não havia nada acompanhado daquele pedaço arrancado dum animal. “Nenhuma palavra ou letra.” Não tinha bom aspecto e até a sombra da carne era incômoda.
Entre um olhar e outro que mudava conforme sua posição, só conseguia ver uma coisa morta. De forma que preferiu não esmiuçar, as chamas deram impressão de movimento. “E então não…”
Ficou ali por outros minutos e sentiu pontada na garganta e gosto indesejado na boca. “Já a via maior que antes e mais iluminada naquela rua escura. Não havia nada mais claro ali.”
De repente, sentiu pungente repulsa. “Acho que nunca tive tanto nojo de carne.” Foi embora olhando aquele pedaço.
“Agora carrego este mau cheiro no meu corpo.” Teve ânsia até chegar em casa, onde a fedentina desapareceu. Só do corpo, onde nunca esteve.
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