O leitãozinho passava despercebido pelos fregueses (Foto: Reprodução)

Na semana de Natal, a fila do açougue parecia não ter fim, quase encostando em uma distante parede branca, onde centenas de pacotes de cereais preenchiam os expositores. Pessoas e mais pessoas compravam imensas quantidades de carne. “Me vê vinte quilos de costela!”, “Quero dez quilos de costelinha de porco!” Ah! E também sete quilos de linguiça toscana!”, “Não! Pedi quinze quilos de cupim!”, “Isso! Isso! Dezoito quilos de miolo de paleta!”

Carne moída, asinhas de frango, coxas e sobrecoxas, coxão mole, alcatra, fraldinha, maminha, bacon. A demanda era tão grande que um dos açougueiros teve de checar na sala de corte se ainda havia carne o suficiente para atender toda aquela gente. Alguns fregueses se desesperaram com a possibilidade de faltar um ou outro corte. “Pelo amor de Deus! Se eu não conseguir um bom pedaço de picanha, sei nem o que fazer. É pra acabar com o feriado da família!”, reclamou um homem que empurrava um carrinho repleto de bandejas de carne congelada e resfriada.

Em meio ao ranger de dentes e roer de unhas, os mais discretos chutavam sutilmente as rodinhas do carrinho enquanto aguardavam a resposta do açougueiro, a quem foi dada a missão mais importante do dia. “Quero bife, mãe! Quero bacon, mãe!”, gritava uma criança chorosa de menos de oito anos. O carnólatra mirim abria tanto a boca para reclamar que não era difícil ver fiapos de carne entre seus dentes.

E quanto mais o açougueiro demorava, mais a tensão aumentava. Mãos trêmulas, gente se coçando como se tomada por comichão. Enfim, olhares inquietos, expressões de desalento, raiva e reprovação engrossavam o baluarte da inquietação. Quando o açougueiro retornou, acenou com a cabeça e sorriu, uma multidão de clientes o aplaudiu.

Rapidamente as vozes e as palmas foram abafadas pelo som das serras elétricas fatiando colossais pedaços de costela. Ninguém se importava com a névoa de farelos de ossos que caía sobre suas cabeças. Diante do álgido e sortido cheiro de carne, um leitãozinho era mantido sob a vitrine. Ele passava despercebido com uma maçã na boca. A verdade é que ninguém se importou com a sua presença até que o vidro começou a vibrar.

Os fregueses se entreolharam e não viram nenhuma mão ou perna humana tocando a vitrine. Do lado de dentro, o leitãozinho tentava quebrar o vidro com a maçã na boca. Fazia um esforço descomunal para se livrar da fruta. Quando conseguiu, grunhiu como nunca. Assustados, adultos gritaram e crianças choraram. Mas ninguém se emocionou mais do que o porquinho que escorregou sobre as próprias lágrimas.

“Meu Deus! Que isso! Que nojo! Que sacanagem! Um porco vivo! Que brincadeira de mau gosto! Misericórdia! Que maldade! Onde o mundo vai parar!”, diziam. A imagem do leitãozinho vivo fez os clientes abandonarem a fila do açougue, e se não por horror, por constrangimento. A exceção foi o homem que estava na fila para comprar picanha:

“O que o senhor quer?” “Quero o leitão.” “Mas, meu senhor, ele ainda está vivo!” “É assim mesmo que eu quero.” “Vou ver o que posso fazer.” “Então?” “Tá tudo certo! Pode levar o porco. O senhor paga isso aqui lá no caixa.” “Muito bem! Obrigado, amigo.”

Naquele dia, o último cliente do açougue abandonou o carrinho onde transportava muitas bandejas de carne resfriada e congelada. Com o leitãozinho nos braços, atravessou o mercado e ignorou dezenas de olhares. No caixa, pagou por algo que não considerava mais um produto e caminhou até a saída como se embalasse um bebê. Lá fora, a noite não parecia escura e fria. Então o leitãozinho da vitrine encostou o focinho no ombro do homem e não chorou, somente cochilou.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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