O que somos para os peixes que matamos?

Não resistiu em imaginar qual seria a impressão de um peixe em relação ao cheiro humano, de quem o pescou e assistiu sua morte

Foto: iStock

Observou um pintado dentro de um freezer na peixaria. “Que olhar estranho. Sei que não é olhar, já que não tá vivo, mas quem vai dizer que não é como se olhasse pra gente?”

Lembrou de uma estátua no cemitério que parecia acompanhar tanto quem vinha de baixo quanto de cima. “Não é coisa boa de se pensar agora; nem comparar, não combina com o apetite.”

“Pele bonita, vistosa. Dá gosto de ver. Tá fresco, chegou faz pouco tempo”, disse o atendente. Só meneou a cabeça. Não teve vontade de acrescentar nada. Contou quatro pintados, quase mesmo peso e medida. Nenhum parecia ter menos de 20 quilos.

Boca bem aberta dá impressão que queria falar alguma coisa ou que morreu tentando. Ou só queria respirar sem poder, e foi morrendo, sufocando até não poder mais – debate, debate, contorce, contorce. Boca furada e fura mais.

Leu em algum lugar que pintado demora pra sucumbir fora d’água, mas não lembrava quanto tempo. Sem oxigênio, o cérebro começa a perder as funções e ele agoniza.

“Você sabia que a primeira coisa que o cérebro de um peixe processa é o olfato?”, disse ao atendente, que sorriu, não respondeu e caminhou até outro freezer para tirar dúvida de uma cliente.

Ainda queria um pintado, com seu bigode que funciona como sentido desatendido pela humanidade, mas não resistiu em imaginar qual seria a impressão de um peixe em relação ao cheiro humano, de quem o pescou e assistiu sua morte.

Contou 11 pessoas de olho nos freezers e os olhos sem vida mirando de volta. Não sabia quantos peixes havia, eram muitos, mas sabia que todos estavam ali por elas, foram capturados para elas.

“Que tipo de cheiro é o nosso? Dizem que a morte, pra muita gente, traz um gosto e cheiro metálico. Será? Mas se peixe tem um olfato tão aguçado, deve ser algo bem mais marcante, algo que nossa capacidade limitada para cheiro talvez nunca conheça, ou possa inferir um dia, quem sabe. Se esse dia chegar, o que pode mudar?”

1 COMENTÁRIO

  1. “O que somos para os peixes que matamos?” Os mesmos algozes humanos que matam bezerros, porcos, coelhos, galinhas e patos. Os demônios de cada dia, alimentando os infernos de cada instante para os animais serem torturados neles. Somos nós. Os humanos bonzinhos que se emocionam e choram ao ouvir sua música predileta mas não se compadecem do pedido de socorro deles. Nós que acalentamos bebês e penteamos idosos com angelical ternura. Nós transformamos animais em cadáveres e os devoramos.

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