Observo um corpo pendurado e aberto de onde vem a carne, protegida por um tecido que enruga-se em alguns pontos. Existe para cobrir esse corpo, para envolver a unidade de sua carne, e cortam-no de uma ponta à outra.
Fica exposto como se fosse jaqueta aberta, como se existisse um zíper a ser puxado para baixo. Nessa grande abertura há um vazio, um oco, da ausência de órgãos que encontramos em nós mesmos.
O que é essencial à vida torna-se ausente, e digo que é um buraco, porque é sobre esburacar corpos para arrancar-lhes o sentido de não ser um oco, um vazio. Uma carcaça é uma inequívoca vulnerabilidade, uma incompletude, um estado de deficiência forçada de constituição.
Uma carcaça é uma coleção de faltas. Sempre falta algo, e a falta aumenta, multiplica-se em sua condição faltante. Uma carcaça exposta é um desejo por um vazio, por ausências que trazemos para dentro de nós. Há um paradoxo nesse estranho comer.
Se é o que almejo, preencho-me com esse esvaziamento e sinto-me satisfeito. E de onde vem minha satisfação que não dos vazios que desejo? Observo a parte de um corpo que não existe de forma independente. Se penso nela, como ignorar que não constitui-se somente por ela? Se essa parte nunca é somente uma parte.
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