Veganos incomodam porque não veem animais como produtos

Por que não mostrar a outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal

Se podemos minimizar o mal que causamos aos animais, por que não fazê-lo? (Foto: Andrew Skowron)

Há uma observação equivocada quando alguém diz que veganos “são iludidos ou imaginam “uma natureza que não seja plausível”, considerando que ser vegano requer uma profunda análise da realidade e da forma como nos relacionamos com outros animais.

O veganismo tem como premissa uma preocupação em incluir outros animais sencientes em nosso círculo moral por um motivo bem simples. Se podemos minimizar o mal que causamos a eles, por que não fazê-lo? Com tal consideração, não estamos ponderando sobre a natureza desses animais que não anseiam pela morte? Não há prejuízo à saúde humana. Ademais, não estamos nos preocupando com a saúde do planeta?

A natureza não é “uma besta fera que devora tudo”

A natureza não é “uma besta fera que devora tudo”. Além dessa colocação não tão incomum remeter de forma clichê à natureza silvestre, nem as “bestas feras” da natureza devoram tudo, já que elas não desequilibram os ecossistemas, mas nós sim quando interferimos na vida não humana considerando somente nossos interesses.

A ideia da “besta fera que devora tudo” também é uma concepção fatalista do mundo e da realidade, porque defende que as coisas são como são, e nada pode ser feito para mudá-las. Quem acredita nisso se coloca como agente passivo da realidade, e busca apenas concordância baseada numa aversão a mudanças que ameaçam prazeres, vícios, hábitos e comportamentos hoje questionáveis moralmente pelas consequências desnecessárias que desencadeiam.

Quando alguém afirma generalizando que veganos têm vidinhas cheias de pequenos luxos alimentares, surge outro equívoco, que é a associação primária do veganismo com grande poder de compra e consumismo. Mais do que isso, parece relegar o veganismo a hábitos alimentares elitistas. Será que quem diz isso já considerou que uma alimentação livre de carnes, laticínios e ovos pode ser bem mais barata?

Veganos não vivem em um romanesco universo multicolorido

Substitutos industrializados desses alimentos são uma questão de opção, assim como frequentar restaurantes caros; e claro, o veganismo é mais que alimentação, envolve consideração das nossas relações de consumo em todos os aspectos. Não faz tanto tempo que o Good Food Institute (GFI) publicou uma pesquisa apontando que é mais fácil encontrar vegetarianos e veganos nas classes médias e baixas do Brasil do que nas mais altas.

Não creio que veganos, pelo menos a maioria, vivam em um romanesco universo multicolorido apresentado de forma jocosa por quem se opõe ao veganismo. Afinal, ser vegano significa entender e se opor a um sistema que mata até 70 bilhões de animais por ano só nos matadouros, sem contar mais de 100 milhões em experimentação animal e até 2,3 trilhões de peixes vítimas da pesca comercial no mundo todo.

Com essa informação em mente, não vejo como posso resumir o universo vegano a um retrato que parece saído de um livro de literatura infantil – como o satirizado por críticos do veganismo. Olhemos ao nosso redor a quantidade de veganos que tentam chamar a atenção das mais diversas formas, e utilizando-se das mais diferentes ferramentas, para a realidade da subjugação animal.

Nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo

Quem faz isso sabe que não é fácil, porque você considera o sofrimento animal enquanto muitos outros podem não demonstrar a menor empatia, respeito, razoabilidade ou consideração pelo que não é humano. Se fôssemos traduzir isso em cores seria cinza. Alguém já disse também que “veganismo é uma percepção sensorial estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista”.

Bom, nem purismo nem moralismo têm a ver com veganismo. Veganismo é uma perspectiva não excludente da moralidade, enquanto o moralismo é baseado em preceitos proverbiais que ignoram a particularidade e a complexidade de uma situação ou realidade.

O veganismo faz exatamente o oposto do moralismo, que é fundamentado na tradição, uma tradição cediça. Concluo que “percepção sensorial estética infantil” é aquela despertada pela propaganda da indústria da exploração animal. Um exemplo é o Lequetreque, mascote da Sadia. Afinal, no mundo real, qual animal venderia a própria carne para consumo em um comercial?

Veganismo é sobre aperfeiçoamento

Outro equívoco surge quando opositores do veganismo afirmam que veganos creem que podem se “retirar da cadeia da violência da natureza”. Não conheço veganos que afirmam que estão livres da cadeia da violência, até porque a maioria vive a realidade urbana, e nesse contexto é mais difícil ainda se livrar das armadilhas que envolvem a exploração animal, já que o ser humano subjuga outras espécies de forma tão visceral que até mesmo pneus contêm insumos de origem animal – como é o caso do ácido esteárico baseado em gordura bovina.

Porém, nada disso impede a luta para diminuir cada vez mais essa exploração, demandando alternativas que não envolvam agrilhoamento e morte de outras espécies. Veganismo é sobre o aperfeiçoamento na nossa relação com outros animais, até alcançarmos um objetivo maior que é o abolicionismo animal. Se temos condições de mudar hábitos desnecessários, que impactam negativamente em outras vidas, por que não fazer isso?

Por que não mostrar a outras pessoas que é possível viver bem gerando menos violência? Como consequência, isso reduz a objetificação animal. Em síntese, veganos incomodam porque não veem animais como produtos. Para finalizar, parafraseio Adam Smith, filósofo que costuma ser referência para pensadores da atualidade que criticam o veganismo: “Pode-se duvidar de que a carne do açougue seja necessária à vida em qualquer lugar.”

2 COMENTÁRIOS

  1. Não matar deveria ser tão óbvio quanto viver e deixar viver. Comerciais com porquinhos e vacas felizes por serem fatiados e terem roubado o leite de seus bezerros, são aberrações humanas, desvios de conduta que nos acostumamos a considerar normal, mas não é. Funcionários chegando ao local de trabalho, marcando seu ponto e vestindo seus uniformes para trucidar inocentes nos deveria encher de horror, mas aceitamos isso, na boa. Não ponderamos sobre o absurdo desta prática por acomodação, indiferença, preguiça e letargia, essa praga que nos tem paralisado no hábito de chupar ossos e descarnar músculos de animais que foram um indivíduo inteiro, capaz de amar sua família tanto quanto amamos a nossa e que sofreram o diabo ao serem desgarrados dela no inferno de suas acerbas punições e castigos sem culpa. Seu desespero diante da morte é o mesmo nosso, de nossos avós e filhos, se estivéssemos no lugar deles. Conectar-se com as emoções dos animais, sentindo a dor deles e procurando minorá-la ou, pelo menos, não compactuando com seus algozes, comprando a carne sagrada deles, não deveria ser encarado tão estranhamente pela maioria, como tem sido, numa inversão escandalosa de valores, porque aqueles voluntários que tentam obstar o assassinato deles, são presos e sentenciados, enquanto os que comercializam sua desgraça são protegidos pela Lei. Ativistas são impedidos de dessedentar porcos amontoados nos caminhões destinados ao massacre, e respondem processos por causa disso. No entanto são irmãos estes seres de outras espécies, que sentem sede e fome tanto quanto nossos bebês rechonchudos e rosados e que tanto quanto nós, nasceram esperando encontrar um mundo razoável, senão feliz, para viver e respirar, refletir aprendendo como ser ou não ser, obedecendo a este incoercível convite à evolução e ao crescimento, indispensável para o progresso de todas as espécies, só que não deixaram. NÃO DEIXARAM.

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