Categorias: Opinião

Sobre a crueldade de comer cordeiro no Natal

Há uma grande procura por cordeiros para o Natal. Muitas pessoas querem comer um animal que não viveu mais do que alguns meses. Ou seja, uma criança de outra espécie. É o mesmo animal que muitas pessoas admiram quando veem em algum vídeo sobre “animais fofos”.

Há quem prefira comprá-lo já morto e esfolado, outros preferem abatê-lo em casa. No abate doméstico, o animal primeiro é atordoado com um porrete ou algo parecido; ou diretamente imobilizam sua cabeça e pés e o degolam após um jejum de 16 a 24 horas.

Depois de sangrado e esfolado, além de ter suas patas e glândulas mamárias removidas, ocorre a evisceração – extrai-se os órgãos. Do rabo, são mantidas algumas vértebras. Então o cordeiro é refrigerado e pode ter outras partes cortadas ou não – depende da finalidade.

Aqueles que não preferem matá-lo e que desejam uma dissociação da carne com o animal, optam por comprar suas partes no varejo. As mais procuradas nesta época do ano são o lombo, pernil, costela, picanha e peito.

Afastado de sua mãe, o cordeiro criado para abate superprecoce é condicionado a ganhar até 300 gramas de peso por dia. A dieta é mantida até o filhote de carneiro chegar a 30 quilos.

Mesmo que alguém alegue que o animal é bem alimentado, isso deixa claro que a alimentação não é sobre as necessidades do cordeiro, sobre os desejos alimentares do cordeiro, mas sobre o interesse de quem deseja o fim do cordeiro – somente o engordar para matar.

No Brasil há cordeiros que são abatidos a partir dos três meses de idade. O sangue desse filhote de poucos meses também é usado na culinária. Há partes não comestíveis que são descartadas como se não houvesse razão para existir.

O cordeiro é outro animal sobre a mesa que evidencia a contradição de uma celebração da vida baseada na morte de criaturas vulneráveis. Deve o Natal ser celebrado com violência?

Leia também “O Natal e a dor de comer animais“, “Fim de um animal para o Natal” e “Dezembro é o mês mais violento para os animais“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

O bezerro no prato e o som de tripa de carneiro

Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…

1 dia ago

O abate que (quase todos) ignoram

No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…

1 semana ago

Uma reflexão sobre a violência por trás do leite

No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…

2 semanas ago

Por que ser cruel com os animais?

Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…

3 semanas ago

Ser vegano “é coisa de mulher”?

Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…

1 mês ago

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

2 meses ago