
Quando se é vegano e sai uma matéria na grande mídia sobre pessoas que dizem ter deixado o veganismo, é comum a conclusão de que “na verdade, essas pessoas nunca foram veganas”. Mas a realidade é mais complexa do que isso.
Afinal, há pessoas que realmente tinham motivação ética e, que, ainda assim, por algum motivo, acabaram desistindo do veganismo. A individualidade humana em relação às experiências de viver o veganismo é diversa. Mas é difícil não reconhecer que algum tipo de insegurança tende a ser estimulada nessas pessoas.
Não sei em que meio essas pessoas vivem, se lidam com algum tipo de pressão ou como reagem a isso. Se uso minha experiência para julgar os outros, caio no erro de ignorar que cada um é cada um. Eu poderia apenas condenar essas pessoas. Mas isso ajudaria em que? Seria uma solução? Ressoaria apenas entre veganos que também pensam assim. Não teria um impacto de mudança.
É problemático atacar pessoas em vez de buscar compreender o que motiva esse tipo de desistência, mesmo quando as pessoas não entenderam o veganismo ou apenas adotaram uma dieta por uma motivação sem relação com os animais. Afinal, é importante ter mais pessoas não participando do consumo de alimentos e outros produtos de origem animal.
Então há sim uma necessidade de garantir uma solidez que evite que pessoas voltem a se alimentar de animais. Isso passa por buscar compreender e pelo menos minimizar essa realidade. Se pessoas com motivação ética afirmam ter desistido do veganismo, isso é um problema que requer atenção.
Ademais, em vários artigos publicados na Vegazeta nos últimos meses, explorei também como motivações frágeis podem levar a resultados frágeis, algo que também tem crescido a partir de iniciativas de promoção do veganismo. Ignorar que existe uma responsabilidade na forma como se transmite o veganismo e que também impacta nesse tipo de realidade seria um erro.
Por outro lado, sim, há pessoas que realmente voltam a se alimentar de animais porque querem. Nesse caso, a questão é bem mais complicada porque envolve o resgate de uma experiência de dissonância cognitiva por parte de quem já tem todo o conhecimento necessário sobre a realidade dos animais e apenas optou por fortalecer mecanismos de resistência “em se importar”.
A realidade também tem mostrado que nem todo mundo é capaz de manter-se fiel a um compromisso de não participar do mal contra os animais por meio do consumo quando as pessoas ao seu redor defendem o contrário. A intensificação de um estado de mal-estar pode afetar uma pessoa de uma forma que um sentimento de autopreservação se torne mais importante do que considerar a exploração e a morte dos animais.
Isso também expõe a importância de redes de apoio e de diálogo para fortalecer a posição dessas pessoas. Se elas se sentem sozinhas em relação ao modo como vivem, isso também pode levar a própria experiência a uma associação com o que é negativo e a uma conclusão de que há um custo muito alto, ainda que seja tão importante – não querer causar mal aos animais.
Ignorar o impacto da pressão social é um erro. Não vivemos a vida dos outros e não sabemos como outras pessoas reagem ou podem reagir a um meio em que ser vegano pode significar um tipo de exclusão, de provocações, ofensas e ataques diários. Então julgar e não buscar ponderar sobre isso, considerando que cada um é cada um, não ajuda a evitar esse tipo de problema.
Há pessoas também que enfrentam problemas nutricionais ou de saúde e que, por desinformação ou “terrorismo nutricional”, podem ser pressionadas a se alimentar de animais. Dependendo do entendimento que essas pessoas têm da própria alimentação, isso pode também levar a uma desistência pelo estímulo à autopreservação.
Infelizmente, mesmo hoje, muitas pessoas não sabem que nosso organismo demanda nutrientes que cumpram o seu papel em mantê-lo saudável, e não especificamente alimentos de origem animal. Afinal, a existência de muitos veganos saudáveis não é a prova disso?
Mas a percepção hegemônica da necessidade do que é de origem animal como “norma” faz com que até mesmo pessoas com motivação ética para não se alimentar de animais possam ser impactadas por esse tipo de afirmação promovida por profissionais que reproduzem e favorecem a manutenção do poder cultural dessa normalização.
Nos casos em que as pessoas realmente viviam o veganismo, notei, analisando alguns padrões com base em matérias publicadas na grande mídia e pesquisas como da Faunalytics, que a insegurança é o principal problema – porque ela se relaciona tanto com o social quanto com todas as outras questões, incluindo a saúde.
Por outro lado, há também experiências chamadas de veganas que não eram realmente veganas. Nesse caso, é equivocado olhar para essa realidade e analisá-la da mesma forma, porque se surge superficialmente e termina porque manteve-se dessa forma, não chegando a algum tipo de profundidade condizente ao veganismo, então o problema é mais de percepção do veganismo do que de viver o veganismo em seu sentido.
Não há como esperar constância de quem experimenta algo com motivações frágeis, e que tendem a surgir como reflexo de uma abordagem frágil. Afinal, a desistência já está inerentemente dentro de uma previsibilidade.
Uma experiência que poderia levar ao veganismo, se não há desenvolvimento, tende a não ter continuidade, e isso é muito comum. De qualquer forma, o ponto mais importante é buscar meios de evitar desistências, mesmo quando são apenas mudanças de hábitos. É preciso garantir que essas pessoas sejam fortalecidas em suas posições e práticas contrárias aos usos de animais.
Também chamo atenção para uma matéria sobre “desistência no veganismo” em que um entrevistado achou uma boa ideia dizer que o veganismo é em si anticapitalista (havendo nisso um processo de inclusão por exclusão). Uma pessoa que não concorda com a posição anticapitalista pode acreditar então que o veganismo não tem nada a ver com ela. Isso não importa para os animais?
Uma pessoa pode voltar a participar da exploração animal porque não é anticapitalista? Ela não concordar com a instrumentalização e redução de animais a produtos é irrelevante? A posição do entrevistado opera um paradoxo que entra em conflito com essa problemática da “desistência” (afinal, é como dizer quem não se identifica com o anticapitalismo não pode ser vegano) e da impercepção do veganismo como um movimento plural, tensivo, conflitivo.
O veganismo reflete a realidade do mundo, onde diferenças não deixam de existir porque temos algo em comum (como a oposição ao especismo), por mais que possamos desejar anulá-las a favor de uma impossível homogeneização. E se defendemos isso, como aproximar do veganismo pessoas que pensam diferente de nós? Para um animal que vai ser morto, importa se quem o mata é anticapitalista ou ele apenas deseja não ter essa experiência de sofrimento?
Concordo com Gary Francione quando ele observa que “estaríamos muito melhor em um sistema socialista democrático”. Acredito até que inerentemente nenhum sistema deveria ser chamado de socialista em nenhum lugar do mundo se desconectado de democracia – logo acho “sistema socialista democrático” redundante, embora entenda o ponto dele em relação às apropriações semânticas.
Mas ainda que o capitalismo tenha intensificado o especismo, o anticapitalismo sequer representa a superação do especismo, e não há nenhum sinal de que isso vá mudar, considerando a imersão anticapitalista no especismo e que favorece e muito o capitalismo que tanto critica na sua constante normalização do uso de animais. Afinal, o capitalismo também prospera com o especismo anticapitalista, porque a defesa de que podemos usar animais (explorá-los, matá-los e comê-los) é também o que favorece reduzi-los a produtos – sua comoditização.
Observações
Acredito que o único caso que merece nossa condenação, envolvendo pessoas que depois afirmaram que desistiram do veganismo, é o de quem usa o veganismo estrategicamente de forma oportunista, e infelizmente isso também pode ocorrer – para obter algum tipo de visibilidade, atingir um novo tipo de público, polemizar. Enfim, como parte de um marketing.
Alguns motivos que têm gerado desistência:
Isolamento social e pressão constante
Exclusão: Jantares em família, encontros, festas e confraternizações podem se tornar campos minados. Ser colocado em uma constante situação de se justificar pode ser exaustivo.
Ataques e piadas: Comentários desdenhosos, piadas repetitivas e até debates hostis colocam o indivíduo em uma permanente posição defensiva. Isso gera desgaste mental.
Solidão: Se a pessoa é a única vegana em seu círculo próximo, falta-lhe uma rede de apoio para compartilhar frustrações, dicas e conquistas. A sensação de estar “nadando contra a maré” pode ser esmagadora a longo prazo.
Questões de saúde e desinformação nutricional
Deficiências reais: Uma transição mal orientada pode levar a deficiências (ex: vitamina B12, ferro, vitamina D3, ômega-3). Em vez de buscar ajustes e suplementação, a pessoa, assustada, é convencida a atribuir todos os seus problemas à falta de alimentos de origem animal.
Conselhos médicos obtusos: Infelizmente, muitos profissionais de saúde ainda não estão atualizados sobre nutrição vegetariana estrita. A recomendação de “voltar a comer carne” é frequentemente a primeira e única solução oferecida para qualquer mal-estar, podendo criar uma enorme insegurança na pessoa.
Falta de fundamentação ética sólida
Mesmo quem começa por ética, mas não se aprofunda no imperativo do antiespecismo pode não desenvolver a resiliência necessária para enfrentar os obstáculos.
Outra observação
Quando se define o veganismo como necessariamente vinculado a outra causa, automaticamente há uma exclusão de todos que não se identificam com aquela causa específica, mas que concordam plenamente com a libertação animal. O veganismo é, em sua essência, um movimento de oposição ao especismo. Ele pode e deve dialogar com outras lutas, mas não pode se tornar sinônimo delas, sob o risco de perder seu foco central e sua força inclusiva.
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