Movimento vegano hoje não tem força para promover mudanças estruturais
O movimento vegano hoje não tem força para promover mudanças estruturais envolvendo a exploração animal. Mas o que mais preocupa não é isso, já que movimentos podem crescer. O que realmente preocupa é que o movimento vegano pode encolher no futuro – tornando ainda mais distantes as possibilidades de mudanças estruturais.
Com base em dados que coletamos a partir de estudos realizados pela Faunalytics, assim como uma análise baseada em questões sociológicas como “adesão frágil” e “compromisso reversível”, cerca de 84% das pessoas que fazem uma transição para o veganismo desistem. E muitas desistem antes de completarem um ano. Esses dados vão ao encontro de uma análise que fizemos sobre a desistência de pessoas que participam de campanhas institucionais.
A explicação, como envolve a adesão frágil e o compromisso reversível, está ancorada em problemas envolvendo a não desestabilização do habitus (Bourdieu). Ou seja, a desistência é uma consequência de uma atuação que age na superfície do hábito alimentar e não na transformação do habitus. Logo, é uma consequência de manter intocadas as disposições internalizadas e os modos de perceber, pensar e agir que são socialmente construídos e parecem “naturais”.
O baixo tempo médio de “permanência como vegano” reflete também um veganismo tratado como “fase” e tendo como motivação o indivíduo em relação consigo mesmo. Portanto, a grande maioria não chega a um interesse em participar da construção de um novo senso comum – algo de que o veganismo depende para mudar a realidade dos animais.
Por isso, é notório também um padrão em que esse viver é mais uma expressão de algo que não foi pensado para durar porque não se desenvolve uma internalização profunda de novos valores.
Assim, as evidências apontam que um “veganismo” para ser vivido como fim no próprio indivíduo não se sustenta em longo prazo. Os interesses do indivíduo mudam porque não estão conectados a um projeto maior e mais amplo que reflete o próprio veganismo. Isso, claro, externa uma contradição.
Veganismo não pode apenas subsistir dentro de uma hegemonia cultural
A fragilidade então é uma consequência da própria fragilidade como motivação. Portanto, é na ausência de uma verdadeira desestabilização que a transitoriedade se torna uma força dominante de alta desistência.
Podemos conectar isso ao veganismo sendo tratado para existir dentro de uma hegemonia cultural (Gramsci) em vez de desestabilizá-la. Porque se cada vez mais pessoas não assumem esse compromisso, e porque não veem razão para tal, a tendência de desistências se torna não apenas cíclica como, à medida que ganha mais força, pode levar ao encolhimento do movimento vegano, que ainda é um movimento pequeno.
Isso pode até enfraquecer o sentido de “movimento” porque tira sua coesão conforme o veganismo, paradoxalmente, passa a ser pensado como expressão meramente individual – tendo ou não um fim no indivíduo, como ser motivado por benefícios pessoais ou considerar os animais, mas entender que isso é somente uma “escolha particular”.
É compreensível que as pessoas explorem diferentes motivos para aproximar pessoas do que é relevante ao veganismo, mas se não houver um momento em que essas pessoas internalizem os valores do veganismo, se isso não for estimulado nelas, provavelmente as chances de que isso não se consolide como um compromisso sem chance de transitoriedade são grandes – como já ocorre.
Apostar na mudança individual sem conexão com um projeto de transformação coletiva é ignorar que o ser humano pode mudar a qualquer momento quando considera somente seus próprios interesses.
Se não trabalharmos na construção de um novo senso comum, como sugere Gramsci como parte da guerra de posição necessária à superação da hegemonia cultural, que nesse caso é a hegemonia especista, que normaliza a exploração e morte de animais, o veganismo estará fadado a ser mais um movimento entre outros que existiram sem promover grandes transformações.
Encolhimento do movimento vegano no futuro é uma possibilidade real
O encolhimento do movimento vegano no futuro é uma possibilidade real, se as pessoas não tiverem motivações profundas que envolvam um compromisso mais do que pessoal. Acreditar que toda mudança é válida ignora que mudanças sem as devidas mediações culturais, como sugerido por Martín-Barbero, e que sejam um ponto de fortalecimento, podem elevar os altos percentuais de desistência.
O movimento vegano precisa crescer de forma consistente para ter condições de desestabilizar a hegemonia cultural que mantém o especismo intacto. E o que concluímos a partir dessa análise é que altos percentuais de desistência são também um reflexo da hegemonia cultural intocada – porque se quem muda, não muda realmente, ou não o suficiente para manter-se menos suscetível a uma reversão, isso expõe a força dessa hegemonia e as falhas do movimento vegano.
Enfim, isso nos permite questionar se o foco em “crescimento numérico via facilidade” em detrimento de profundidade é realmente um caminho adequado. A ideia de facilidade tem resultado, pelo que percebemos, amplamente em desistência. É preciso fazer com que as pessoas desenvolvam motivações que não sejam frágeis; que também não sejam suscetíveis a desistências em cenários de crises econômicas e pressões sociais.
O que também não ajuda é que notamos que o foco no indivíduo, não no coletivo, acaba por criar um padrão em que se motiva e ensina “a mudar o prato”, mas não a participar da mudança contra a hegemonia cultural especista. Assim, a própria vivência passiva se torna um elemento de não fortalecimento de uma posição e do não engajamento para evitar o quadro atual de desistências.
Envolver mais pessoas em formação estratégica e fazê-las refletir sobre hegemonia cultural, habitus, mediações culturais e táticas de mudança social é uma forma de aprofundar o pensamento na dimensão coletiva e suas possibilidades de ação – além de fortalecer suas convicções e engajamento. É preciso entender também que a ética no veganismo é um princípio de libertação que dá sentido a uma luta coletiva transformadora.
Observação final
Segundo levantamento da Faunalytics, a desistência entre os que têm uma motivação ética é menor do que daqueles que mudam seus hábitos por saúde, pelo meio ambiente ou por qualquer outra motivação. Isso revela que motivações individuais e instrumentais são menos resilientes. Os dados reforçam que a consideração pelos animais é um motivador de longo prazo mais consistente do que abordagens focadas no indivíduo.
Este artigo se conecta a outro artigo que publicamos: “Como o ativismo vegano pode encolher nos próximos anos”
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