Podemos achar um absurdo a situação em que um motorista transporta um grande porco amarrado por uma corda na pequena carroceria de um pequeno veículo, e o animal fazendo o que pode para tentar livrar-se da corda.
Mas deveríamos nos perguntar também de onde vem a crença que sustenta a ação de não ver problema em transportar o animal dessa forma. Ela não surge senão pela crença de que não há problema em fazê-lo porque trata-se de animal “que existe para o nosso sistema alimentar”.
É um animal com quem não se tem uma consideração com base nos interesses desse animal, e sim com base nos interesses humanos do que fazer com esse animal. Logo para qual finalidade ele existe e deve existir.
Então é reducionista a percepção de que se me alimento de animais, posso reprovar o que é feito com esse animal, mesmo que, por contradição, eu me alimente de animais como esse regularmente.
Claro, podemos dizer também que a legislação não permite isso, que há uma forma adequada de transportar animais que serão mortos e reduzidos a pedaços, incluindo as dimensões do espaço. Mas por que não olhar para o que sustenta tal realidade?
O ato de alimentar-se de animais e não ver problema em matá-los apequena o impacto da consideração sobre a realidade desses animais. Portanto sugiro uma reflexão.
Não imagino que um porco, se fosse transportado de tal forma, mas fosse libertado da exploração, não estaria em vantagem em relação a um porco que não fosse transportado dessa forma, mas recebesse eletrochoques e fosse degolado em um ambiente considerado adequado pela legislação – e que é o destino de mais de quatro milhões de porcos por mês no Brasil. A crença de que há uma forma certa de provocar males evitáveis contra outros animais é algo que deveria ser superado.
Enquanto acharmos que há uma ou outra coisa sobre o uso de animais que deve ser reprovada e muitas outras que devem ser aceitas, estaremos diante de uma relativização que não chegará a transformar a realidade desses animais, e porque resistimos em superar que o lugar deles deve ser outro que não envolva a arbitrária submissão aos desnecessários interesses humanos.
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O caso dessa situação que viralizou só corrobora aquilo que já sabemos: ou uma grande parte das pessoas desconhece a forma como aquele pedaço de carne que chega aos frigoríficos, ou sabem mas preferem fingir que não acontece um holocausto todo santo fucking dia. Se elas tivessem os guinchos e gritos desesperados de porcos como alarmes dos despertadores de manhã cedo, talvez a consideração pela vida dessas criaturas fosse mais levada a sério.