Há alguns dias, fui comprar soja em grãos em um empório. Geralmente uso essa soja para fazer tofu. A atendente me disse que não havia soja em grãos porque há um problema na produção de soja. O problema é uma queda na produção. No entendimento dela, a situação se resume a isso.
Aproveitei a oportunidade para dizer que quando a produção cai e impacta primeiro na oferta para consumo humano, isso ocorre porque a destinação primeira da soja não é o ser humano. Se falta soja para que eu possa comprar em situação de menor produção ou escassez, transgênica ou não, é porque a prioridade é atender à destinação da soja para a pecuária.
Comentei com ela como acho isso extremamente contraditório, porque a soja à qual não tive acesso nessa situação é porque a soja, na lógica predominante do sistema alimentar que supervaloriza proteínas animais, deve primeiro ser destinada para o consumo não humano.
Afinal, a maioria dos produtores de soja jamais investiria em soja se não fosse nessa ordem, que é uma realidade que envolve não apenas os grandes produtores, mas também os médios e os pequenos.
Mesmo que o impacto de suas produções seja diferente, porque o impacto da produção também é variável pela dimensão produtiva, todos participam disso e fortalecem o que existe também de simbólico no uso da soja não para alimentar humanos, mas outros animais, e que, enfatizo, são alimentados para serem mortos e comidos.
É estranha essa lógica de algo estar pouco disponível para consumo humano, mas estar maiormente disponível para outros animais porque eles serão comidos, sendo que poderiam não ser comidos e a soja não estar indisponível. Até porque a escassez também tem relação com a questão climática agravada em relação com essa contraditória produção.
É um episódio para pensar as contradições da cadeia da soja. Ademais, quando o dólar está bem valorizado, aumenta ainda mais o interesse nas exportações para que a soja seja destinada para alimentar animais em outros países. Ou seja, pode faltar soja para o ser humano que quer apenas um quilo desses grãos, mas não pode faltar para manter essa máquina antropocêntrica de redução de animais a produtos.
Leia também “Veganos que demonizam a soja estão errados” e “Como a produção de soja é financiada por quem come carne“.
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Análise perfeita da contradição: oferta-se proteína vegetal ao animal para ele próprio servir de proteína ao ser humano.
Detalhe: o capim tem em torno de 15% de proteína.
Obrigado, Tessa!