
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como criá-los e matá-los para comer, isso não ocorre porque não há crueldade, mas sim uma negação da crueldade.
Nega-se a crueldade porque culturalmente acredita-se que o mal normalizado contra os animais não pode receber atribuição de crueldade. Essa é uma internalização poderosa que leva até pessoas a debocharem da conscientização sobre essa realidade dos animais.
As pessoas acham que quando pensam assim estão expressando algo inato. Mas isso não é inato e sim cultural. O poder dessa construção cultural está exatamente em vê-la como parte do que se é e do como deve continuar sendo.
Mas se essas pessoas não fossem educadas para se alimentar de animais, como isso se sustentaria? Alguém simplesmente acreditaria que é preciso matar animais para comer? Esse é o poder da hegemonia cultural, transformar escolhas históricas e contingenciais em “senso comum”.
A própria ideia de que se alimentar de animais, se sua desconexão com a crueldade é uma impossibilidade, mas pode ser justificada sob a afirmação da inevitabilidade biológica, já reforça também o poder dessa hegemonia. Afinal, a inevitabilidade biológica é uma construção cultural e não um imperativo biológico.
Mas ao tratá-la como imperativo biológico, usa-se isso até como mecanismo de negação da crueldade porque há uma defesa de que “não fazemos mal aos animais, apenas fazemos o que devemos para sobreviver”. Isso cria uma seletividade moral sustentada por um conveniente fator de imprescindibilidade que é negado pela própria construção cultural dessa consumação.
A falha do consumo de animais como inevitável e a negação da crueldade
Enfim, se criamos humanos para não se alimentarem de animais, eles são a prova da falha como inevitabilidade, já que são o exemplo desse consumo como evitável. Portanto, remover o ato de se alimentar de animais da esfera da imprescindibilidade é também um ato de contestação da negação da crueldade.
Isso porque ambos são construções culturais tratadas como imperativos para manter intocada uma hegemonia cultural, mesmo que isso seja tratado somente como “uma expressão do eu” – porque o “eu”, então, não surge sozinho, mas dentro da cultura que normaliza a banalização tanto do ato de matar para comer como de se negar a enxergar a crueldade.
Tudo isso ganha força sob a percepção equivocada do “natural”. Mas o que é o natural da hegemonia cultural senão uma prática consolidada como cultura e que ganha status de senso comum quando se constitui como habitus? Portanto, a própria ideia da necessidade nesse fazer, e que se constitui na rejeição “à ideia da crueldade” perde sua força, e mostra o que realmente é, quando a colocamos no seu devido lugar – que não é de inerente naturalidade, mas de construção cultural. E culturas não são fixas, porque não existem para sê-las. Elas refletem viveres e consciências de uma época, e que mudam, se transformam em contato com outros saberes, outros reconhecimentos, outras considerações.
Ademais, se normalizamos algo que em qualquer outro contexto seria considerado crueldade, o que impede que no contexto primeiro não seja visto dessa forma? A hegemonia cultural e o habitus têm esse poder de permitir uma paradoxal relativização da crueldade com base nos interesses em conflito.
Afinal, se digo que alguém sofreu uma concussão para que a degola fosse facilitada, e não digo quem, o que podemos pensar a respeito? De certo, uma crueldade. Mas se digo que isso ocorreu em um matadouro, apaga-se o animal da equação pela primazia do habitus como expressão de uma hegemonia cultural especista. Portanto, a crueldade existe, apenas é convenientemente apagada como conclusão.
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