Se você perguntar a dez pessoas por que elas se alimentam de animais, a resposta mais comum pode ser “porque sim”; que traz uma significação óbvia. Ou seja, por não questionarmos nossos hábitos, assim como faziam muitas outras gerações, acreditamos que não temos razão para fazer mais do que reafirmar o que se tornou prática comum. “Afinal, por que mudar algo que ‘funcionou’ até agora?”, diriam.
Há uma crença fatalista de que “as coisas são como devem ser”. Mas isso realmente faz sentido e é justo? Sim e não. Sim porque práticas consideradas tradicionais (ainda que prejudiciais) nos afastam de um olhar mais abrangente, ou mesmo de um outro olhar, sobre a realidade; porque sua legitimação já está entranhada no cerne da nossa própria condição histórico-cultural.
E não “porque sim” revela uma limitação confortável que perpassa pela conclusão de que “se não vejo meus hábitos como nocivos a mim mesmo, não tenho razão para mudá-los”. Podemos interpretar isso como um senso condicionado e/ou egocentrado da realidade, em que avaliamos consequências pesando apenas a implicação de algo para nós mesmos – como se houvesse um círculo de consideração moral em que excluímos os outros e ainda nos negamos a enxergá-los como prejudicados por nossas escolhas e decisões.
Infelizmente, se alimentar de animais se aplica a essa ausência de ponderação comumente reforçada pelo “porque sim” e sua tradicional anuência. Isso ocorre com facilidade quando onde há vidas enxergamos apenas produtos ou bens móveis – que é o caso de animais reduzidos a pedaços de carne, fontes de ovos, leite, etc. No entanto o “porque sim” também pode revelar fragilidade argumentativa que permita ao outro uma reavaliação sobre suas relações de consumo.
Mas isso é algo que pode ser explorado positivamente. Quero dizer, quando uma pessoa é confrontada pelo esvaziamento de argumentos em relação à redução dos animais a produtos ou meios para um fim, ainda que ela não concorde com você, e reforce isso de forma visceral, se suas palavras forem opostas, mas contundentes e justas (do contrário, perde-se oportunidades), há chances de que o outro se veja obrigado a conviver com elas por tempo variável – e isso é um propiciador de mudanças. Se isso não acontecer com alguém, isso não significa que não vá acontecer com outros.
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