O gato da Vila Paraná

A boca continuava entreaberta, denunciando que a dor da morte não poupava nem os mais inocentes

Querubim ouviu tiro de espingarda seguido de miado. Lá fora, na rua de terra arenosa, Ranulpho nem se mexia, estatelado sobre uma porção de folhas miúdas de sibipiruna. A boca continuava entreaberta, denunciando que a dor da morte não poupava nem os mais inocentes.

Com receio de parecer sentimental demais, o menino engoliu o choro. Fez tanto esforço que as mornas lágrimas que ameaçavam escorrer do canto dos olhos desapareceram. Nem conquistaram o princípio de liberdade.

Querubim observou Matias sobre o pé de manga, sorrindo e mirando a espingarda em sua direção. “Você quer também? Dou em você, trouxa!”, avisou o moleque. Querubim não disse nada. Só coçou a cabeça, sem se importar com a nuvem poeirenta que se formava.

De costas para o assassino, agachou e fez carícias na barriga do gato que já não sentia suas mãos sobre o pelo claro. Onde havia um par de olhos azuis, restaram pequenas massas disformes. Duas lágrimas caíram pejosas, umedecendo a boca seca do felino. Tarde demais.

As horas passavam, e a natureza sepultava Ranulpho, cobrindo seu corpo com o solo arenoso, pouco a pouco transportado do bosque pelo vento sul. “Ô Querubim! Leva esse bicho daqui. Já vai começar a feder”, diziam. Ele só acenava com a cabeça em concordância, sem mover as pernas alinhadas sobre o meio-fio.

Quando a terra arrastada pela aragem invadia a boca do gato, o menino se aproximava e a limpava usando uma toalhinha umedecida com água. No final da tarde, tentou enterrar Ranulpho no canteiro de plantas da mãe. Foi repreendido enquanto cavava a terra com a colher de pedreiro do avô. “Tá louco, menino! Aqui não é lugar de enterrar bicho!”, reclamou.

O velho pegou o gato morto pelo couro do dorso e o lançou dentro de uma sacola grossa e escura. A pendurou no guidão da bicicleta de aros tortos e pedalou até o lixão do bairro mais próximo. Retornou sem dizer palavra. Entrou na cozinha, tomou um gole de café amargo e deitou na rede.

Querubim assistia o velho, querendo saber o que ele fez com Ranulpho. Sem coragem de perguntar, lembrou da lei imposta na Vila Paraná na década de 1970, quando três cães de grande porte mataram dois bebês. “Ninguém mais pode entrar aqui com animais. Se alguém matar, não pode chorar nem enterrar, senão vai se ver comigo”, declarou Mandino Conselheiro, a quem a população recorria sempre que surgia algum problema.

Sob um pé de mamão, Querubim observou o avô até o velho dormir na rede. Chorou e gritou com a mão na boca. Açoitou as próprias pernas e costas com os galhos do mamoeiro. Ninguém ouvia. Os vergões se multiplicavam. Não se importava. Deitou na terra e sentiu gosto acre na boca, misto de terra e sangue.

Amanheceu no colchão velho, enrolado em lençol branco encardido e cheio de furos. Pelo buraco no teto, o sol mirava pacotinho de ração ladeado por tampa com água. Querubim levantou e correu até a entrada do barraco onde vivia com a mãe e o avô. O casebre ameaçava cair há anos, porém resistia.

Sentou no chão e usou pedaço de graveto para desenhar Ranulpho. Quando terminou, cochilou com as costas escoradas na cerca de madeira e arame farpado. Em sonho, ouviu um ronronar que arrepiou até os pelos que não possuía. Abriu os olhos e, sob sua mão esquerda, Ranulpho marcava território mais uma vez, esfregando o pelo sujo e macio.

O odor de lixo passou despercebido, não o miado de fome. Chorando, Querubim tomou o gato cego e derreado nos braços. O levou para dentro de casa e de lá não saiu mais naquele dia. A história de Ranulpho e Querubim mudou a Vila Paraná no final dos anos 1990: “Quem não vê amor num animal, não vê amor em si mesmo”, disse Neto Conselheiro, filho de Mandino.

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