Uma pessoa acusa alguém de “impropriedade” por fazer críticas a uma situação de exploração animal sem presenciá-la. Como se somente vê-la, de corpo presente, pudesse garantir um juízo adequado da situação. Sobre isso, lembro-me de Machado de Assis em “História de Quinze Dias”. “Nunca fui ao xilindró, e todavia não o estimo. Há coisas que se prejulgam, e as touradas estão nesse caso.”
O exemplo da referência à tourada serve para outras formas de subjugação animal. Pode o sofrimento animal ser uma interpretação equivocada do que sente o animal? É preciso estar diante do sofrimento animal para reconhecê-lo como sofrimento animal? Se não vejo o sofrimento animal, é o sofrimento animal uma invenção e posso furtar-me de crer que seja real?
Reprovar o sofrimento animal depende do meu juízo, mas mesmo que meu juízo fosse manifesto por indiferença, o sofrimento animal deixaria de ser sofrimento animal? Qualquer ideia de “impropriedade” em relação ao animal não humano dificilmente é a ideia de “impropriedade” em relação ao que não vemos sobre o ser humano, mas sobre isso não temos dúvida se envolve o que é implicação concreta.
Deve o mal ao animal, se a ação depende de causar-lhe mal, ser julgado como “impropriedade” porque o olhar humano não está fisicamente no lugar? Se é o que ocorre, não é porque o sofrimento animal ainda é definido como dentro de um espaço em que só pode ser sofrimento se estiver em um escopo predefinido de reconhecimento?
Não é o ser humano que ainda determina à medida de seu interesse o que sobre o animal não humano é sofrimento? O que parece óbvio porque é não pode ser rejeitado, porém não significa que não será dissimulado; porque ao animal cabe o espaço da “finalidade”, sem poder reivindicar, apenas por seu próprio interesse, sua exclusão desse espaço.
Mesmo quando o animal prevalece em sua resistência, a resistência só é considerada se dignificada pelo ser humano, senão logo reduzem-na à irresistência que desvanece a resistência. Logo a ideia da “impropriedade” em relação ao sofrimento animal é capciosa também porque vale-se da impossibilidade do animal em contestá-la sem depender da intervenção humana.
Leia também “Machado de Assis: ‘Devíamos adotar o são e fecundo princípio vegetariano‘”, “Imagens que expõem o sofrimento animal são importantes“, “Se reconhecemos o sofrimento animal, por que o estimulamos?” e “Pior do que ver o sofrimento animal é vivê-lo“.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…