Quando fecharam a última fazenda leiteira

Testemunhou o fechamento da última fazenda leiteira com um sorriso que parecia desenhado. No mês seguinte fecharam a última granja de ovos

Pintura: Hartmut Kiewert

Testemunhou o fechamento da última fazenda leiteira com um sorriso que parecia desenhado. No mês seguinte fecharam a última granja de ovos. E o último matadouro? “Já tem alguns anos…” As vacas subiam na carroceria e ninguém as apressava, cutucava ou gritava.

Vozes mantinham o mesmo tom, sem exasperação, e cada animal era chamado pelo nome. Algumas pessoas que as conheciam arriscavam um abraço desajeitado ou carícia no topo da cabeça antes de subirem a rampa. Ninguém enxergou medo.

Talvez apreensão, surpresa ou ansiedade, quem sabe. Lá dentro estava tão limpo, sem sujeira. Mas alguém notou um “pequeno aperto” e chamou outro caminhão para transportá-las sem amontoá-las. “A viagem não pode ser traumatizante.”

Não havia vacas debilitadas, com úberes inchados, bicos feridos ou aspecto visceral de cansaço. Nada disso. As máquinas que antes arrastavam as “improdutivas”, “doentes” ou “velhas” desapareceram há muito tempo, assim como o sistema de ordenha mecânica e os bastões de choque – chamados de “guia”, no eufemismo. “Crimes contra a dignidade animal”, reconhecem na unanimidade.

A demanda por leite caiu quase 98% nos últimos dois anos, e zerou alguns meses antes do fechamento da fazenda remanescente. “Leite não é pra gente.” Ninguém precisa mais dizer. “Quem quer beber?” Não houve protesto, mobilização nem nada do tipo. Por que haveria? Não existe mais oposição. E os bezerros? “Com as vacas.” Separá-los? “Inadmissível.”

Animais não precisam mais viajar em pé na carroceria. “Quem gostaria de viajar em pé?” – usual ponderação. Conforto não é obrigação, mas consequência de uma combinação prevalecente de respeito e atenção – também na ausência de exploração.

Não longe dali, já estavam preparados para recebê-las. Sem ordenha em benefício humano, sem separação de mãe e filho, sem confinamento, sem privação, sem descarte quando não há lucro, “sem carne de leite”, “sem carne de mãe” – e porque quem vê vaca não vê número. “Olhe lá…não disse?”

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