Categorias: Pequenas Narrativas

Quantos corpos colocamos em nossos corpos?

Ilustração: Jo Frederiks

Ficou parado na ponta do balcão do açougue. Enquanto clientes eram atendidos, seus olhos passeavam pela vitrine bem iluminada.

“O que é a carne?”, questionou-se. “O que não é para a vida é para a morte? Que semostradeira visceralidade…ou iniquidade.”

Observou a diversidade de formas – geométricas, irregulares, grossas, finas e cores indefinidas. “Disso, todos somos feitos, ainda que não estejamos ali, que tenhamos subtrações, adições e acentuações em relação aos outros, por nossas semelhanças e dissemelhanças físicas.”

Viu bifes em camadas e imaginou a própria carne cortada e exposta. Não ateve-se ao barbarismo ou violência. Não pensou em matadouro, corpos pendurados, degolados – somente um corpo cortado e vivo, com partes faltosas de sua carne.

“O que diria? Se estivesse diante da ausência parcial de minha matéria. Sofreria e já não viveria? Provavelmente, se assim ficasse. Não é nisso que penso agora, e sim numa falta de mim mesmo, que neste momento é falta do que não sou.”

Olhou para um lado, para o outro, viu pessoas chegando e saindo com sacolas, onde o volume de carnes que não eram suas oscilava. Corpos que transportam corpos. Bistecas, costelas, pernis, coxas, fígados, medalhões, corações… – tempo no açougue é miríade de dilacerações.

“Quantos corpos colocamos em nossos corpos? De uma intimidade para outra intimidade – da violação primeira para nossos espaços que não vemos, mas sentimos. E não sentiram eles antes para que sentíssemos depois? Sim, não é um mesmo sentir, porque um vem com o fim.”

Considerou a sequência de fins que ingerimos, já que tantos acabam dentro de nós – ingerir, digerir e repetir. “Quem reflete sobre o acumular e desacumular que vêm e vão? Nosso corpo é espaço derradeiro, processo contínuo de sepultamento, sem honras, sem reconhecimento. O que é nosso suco gástrico? Agente de cremação em estado de sobre-esforço?”

Passou uma das mãos pelo corpo coberto pela camisa e sentiu a pele morna. “Aqui dentro encerra-se mais uma etapa dum processo de despersonalização do que não somos nós, mas que influi no que somos. E o que somos sobre o que em relação aos outros espoliamos?”

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago