
Observou um caminhão transportando animais para o matadouro e perguntou-se quantas criaturas percorrem todos os dias as estradas do país sem que alguém reflita sobre seus fins.
“Estão o tempo todo em carrocerias de diferentes tamanhos atravessando nossas estradas. Podem ser vistas em qualquer parte, notadas com brevidade ou ignoradas como se não existissem ou não valessem uma virada de cabeça e um olhar sorrateiro que conduz a alguma coisa.”
É mais comum serem percebidos apenas como criaturas numa carroceria, sem associação com ida ou partida. “De que nos importa o destino desse animal?”, perguntariam. “E percorrem a estrada num ciclo sem fim, como se amanhã pudéssemos encontrá-los outra vez. Que ideia!”
Lembrou de quando era criança e viu um frango num dia e depois noutro preso numa caixa em carroceria de madeira que soltava farelos sarapintados de casca de tinta.
Caía sobre a ave que balançava a cabeça de um lado para o outro. Ficou feliz de revê-la, destreinado para o reconhecimento da miséria não humana e sem saber que a do dia anterior já tinha morrido.
“É coisa rara encontrar o mesmo animal na estrada. Se você olhar bem para os detalhes nos caminhões saberá se o destino é a morte, que é mais comum. Para muitos, há uma ideia de que esses animais são viajantes, que estão apenas transitando de um lugar para outro – uma confortável percepção. Quantos ponderam que é viagem sem volta? Porque perceber e ponderar não é mesma coisa.”
Hoje os caminhões que transportam animais para o matadouro já não passam despercebidos aos seus olhos, mas lamenta que tal reconhecimento pouco ou nenhum impacto tenha para os outros, mesmo quando alguém diz que sim, que serão abatidos em poucas horas.
Preserva na memória dezenas de olhares e expressões que formam colagens de criaturas que já não existem. “Reações de emoções que queremos longe de nós. Há tanta peculiaridade numa carroceria cheia de criaturas que vieram e deixarão este mundo para mais tarde serem rasgadas com garfo e faca. Às vezes, imagino que estão saltando do caminhão e caindo num chão macio dum mundo diferente – que acolhe e não retalha.”
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