Na granja disse que “gaiola é lugar ruim de se viver até o dia de morrer”. Fez silêncio, ouvindo barulho de montoeira, e continuou:
“E aquelas que não botam bem e ensacam pra quem quiser? E ficam balançando dentro. Quando é saco de cereal ou farelo, quem vê de longe, mas não muito, pode imaginar quem tá dentro e como é. Já pensei no tamanho, na cor das penas, no pouco brilho dos olhos. Quem leva pra matar pensa só na transformação da carcaça…”
Olhou em volta, vendo porção de clientela, e quase ninguém estranhou. Era só rotina – “quem não dá ovo, dá carne”, e as coisas vão acontecendo, se invertendo, numa ordem natural sem ser natural.
Quando viu mais uma galinha, pensou na estranha viagem no porta-malas, de onde ela não seria resgatada. “Só levantou e jogou, como se carregasse coisa sem vida. Sim, acontece de morrer de hipertermia, como já vi; porque galinha menos ainda resiste ao calor extremo, fica hiperventilando, agonizando.”
Definiu o porta-malas como instrumento de pré-cozimento. De uma gaiola para outra, com formato diferente e outra escuridão conveniente. “Mesmo sem muito calor, quem merece?” Lembrou do lamento de uma galinha dentro do saco bege. Som diminuiu assim que o carro partiu. “Não desapareceu logo porque continua com a gente…fica na mente.”
De repente, recordou-se de uma galinha com “síndrome de galinhola”. Depois de um ano e meio de granja, ou pouco mais, chegou ao matadouro se movendo como engaiolada. Não percebeu que não havia mais gaiola, mas já era a vez da degola.
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