Boi manso olha direto nos olhos. É olhar meio baixo, não se agiganta (Fotos: Abatedouros AT/iStock)

Boi manso olha direto nos olhos. É olhar meio baixo, não se agiganta. Dentro da caixa, fica quase estático, movendo a cabeça devagarinho, sem muita curiosidade, com a orelha na altura dos olhos ou abaixo deles.

Dali pra frente é finura, como se a cabeça alongasse. Narinas largas e úmidas percebem cheiro diferente e o ritmo da respiração muda. Pescoço já está preso. Faz pensar em quantos humanos foram executados com parte do corpo imóvel. Hoje a maioria reconhece como barbárie, inaceitável.

Não em relação aos animais. Industrialização aperfeiçoou e velou o caráter brutal e destrutivo do abate. Morte em série, 756 por hora, mecânica, cronograma, percepção temporal – tudo isso ajuda na crença de que não é algo bonito, porém escusável para muita gente. “É só o sistema alimentar.”

Se entre sessões de violência, o ambiente for bem limpo, alguém até arrisca dizer que um matadouro parece um hospital. Enquanto isso, o boi, entre concreto e metal, mantém os olhos abertos. Não tenta tirar o pescoço dali. Nem conseguiria.

Continua mirando a mão que se aproxima. Não faz barulho. Falta menos de minuto. Nem pisca. Tem olhar de criança cansada. Redemoinho no topo da cabeça desaparece com um disparo. Não funciona. Mais um. Olhar se desfaz. É hora de preparar o próximo, porque  quem vê carne não vê vida.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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