
Viu quando abriram a câmara frigorífica do caminhão e começaram a descarregar animais esfolados. As mãos que seguravam davam impressão dum estranho abraço numa criatura sem pele e sem cabeça.
Chamou-lhe mais atenção a vermelhidão, como se tivessem tingido cada um. Alguém dizia bem alto com uma prancheta na mão: “Outra peça!” Comentou com o primo a esquivança de ouvir chamar animal morto de peça.
“Pois é, porque já não é animal. Na realidade, não veem como tal. Agora, e o tempo todo nesses lugares, é algo que compram e comem.” “Ainda assim é estranho…” Ver aqueles corpos que receberão mais golpes depois da morte despertou sentimento indefinível.
“Taí um animal que está sempre sendo esfaqueado enquanto restar algo num açougue do supermercado ou de qualquer outro lugar.” “Vai além na verdade. A faca só para de rasgá-los quando o último pedaço é engolido.”
Se a realidade pudesse misturar-se às ilimitações da fantasia, gostaria de vê-lo voltar a viver. Não era bem sobre fantasia, mas na sua mente sobre gentileza e impossibilidade de matar. “Se as peças que são animais mortos voltassem a viver, recuperando suas formas originais, será que as pessoas desejariam matá-los de novo? Chegariam tão longe?”
“Acho que quem cria sim, já que o fim é econômico, mas sobre quem come, seria possível ter surpresas, embora que posso dizer sobre proporção? E não seria mais pelo medo do que por qualquer reconhecimento de direito?” “E se o medo evoluísse para uma consideração de direito? O medo não é sempre nocivo, não nos transforma de tantas formas?”
Imaginou alguém abrindo carcaças para operá-las e sua intenção enchendo-lhes de vida. Voltariam a ser quem eram, recuperando a plena fisicalidade, consciência e capacidade de sentir outra vez a vida antes roubada.
Concluiu que as intenções se multiplicariam de novo sentido. “Não é a própria intenção um estímulo à morte? Não é da intenção que depende tal violência? Porque sem a intenção de contribuir para obliterar o que é o outro ou parte do seu ser ou viver, como esta violência poderia triunfar?”
Então chegou outro caminhão. “Na minha quimera, que espero verdade, como é desejada esta ausência.”
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