Quem vê os animais no mercado?

Entrou no mercado, caminhou até o açougue e parou. “Aqui estão os animais que não se vê. Mas só aqui?” Viu formas, maneiras e percebeu cheiros, sons e movimentos

Ilustração: Jo Frederiks

Entrou no mercado, caminhou até o açougue e parou. “Aqui estão os animais que não se vê. Mas só aqui?” Viu formas, maneiras e percebeu cheiros, sons e movimentos.

“Açougue é onde não pode-se negar a obviedade, por mais dissimulada e finória que seja. Afinal, se digo aqui e agora que temos grande sortimento de partes de animais mortos à nossa disposição, pela indisposição que não é nossa, quem refutará, se é verdade que não há como negar?”

Afastou-se e percorreu todo o mercado, apontando para cá e para lá; dizendo a si, em tom para os próprios ouvidos, que as partes “altas” dos animais estão nos mostruários mais visíveis – e acenou com a cabeça para o açougue e seções adjacentes de partes de tamanhos semelhantes e combinantes.

“E onde estão as partes ‘baixas’, numa referência ao que então é de ainda menor interesse à própria consciência? Por quase todo o lugar. Se digo que dessaber é displicência tomam como implicância. Melhor então é a ignorância?”

Girou para cá, para lá e julgou impossível enumerar quantos produtos têm partes conhecidas e desconhecidas de animais nas muitas seções do mercado.

“Mais desconhecidas do que conhecidas, porque a ausência do querer é atroz na sua imperatividade. Quem realmente quer saber? Por que não afundar-se no dessaber pelo prazer?”

Tentou imaginar quantos animais circulariam pelo mercado se suas partes ou implicações de espoliações pudessem retomar vida.

“Acha que caberiam aqui? Impossível! Nas menores embalagens há também apropriações. Quando não são suas vidas, são coisas da vida que, quando não ‘bem produzidas’, também custam-lhe vidas. Sempre custarão, mais cedo ou mais tarde, que nunca é tarde.”

Pegou um pacote diminuto, de aspecto atrativo, ergueu-o à altura dos olhos e leu sete ingredientes extraídos da vida não humana. Tornaram-se coisa nova, inidentificável.

“Não é também estética insidiosa da industrialização? Quem no contento de consumir refletirá sobre o desprazer que não é nosso? Assim são muitas coisas para nós, que não vêm de nós. Agora penso nos castigos que não cessam e em quem os incita…”

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