Quem vê vida não come frango

A vulnerabilidade que não era sua fez algo queimar dentro de si e lembrou dum frango inteiro que, sem vida, ocupava um terço da gaveta do congelador

Pintura: Twyla Francois

O comportamento duma ave chamou-lhe atenção ao lado da rodovia. Encostou e arriscou aproximação. Ia de um lado para o outro e parecia perdida. “Talvez não seja isso. Pode ter se machucado e começou a agir dessa maneira.”

Notou asas feridas e manchas arredondadas do sangue que pingava por onde andava. Nunca resgatou ave e não tinha certeza se teria parado no dia anterior ou posterior. “Foi momentâneo. Olhei e apenas parei. O que posso dizer?”

De repente, a ave parou de caminhar e o som da respiração ofegante chegou como se fosse mais potente do que qualquer combinação ou descombinação que viesse dos veículos na rodovia.

“Havia pressão tão forte em seu peito que imaginei que algo se romperia e nasceria ali mesmo. E não nasceu? Mas pelo lado de dentro, e espalhava-se por todo o corpo. E o que anunciava isso era um órgão de carne, músculo como o meu e o seu, que reagia mais e mais até perder um pouco de intensidade. E ainda continuava muito mais célere do que o meu próprio em qualquer situação.”

Tentou imaginar a origem da agitação da ave que parecia travar batalha dentro de si, até que um vendedor de vassouras aproximou-se e disse que aquele era um frango que caiu dum caminhão.

“Já ia para o abatedouro no fim do parque industrial. Sinto um pouco de vergonha em dizer, mas só vi e nada fiz. Preferi ignorar e fingir, assim como tanta gente. Ainda bem que não somos o mesmo – nem um só. Se eu pegasse, será que eu comeria? Acho que sim. Mas você, pelo tempo que está aí, acho que não. O que isso te diz?” O vendedor sorriu, deu as costas e saiu.

Continuou olhando para o animal que escorou num pedaço grande de casca de árvore e enterrou os pés como pôde. A vulnerabilidade que não era sua fez algo queimar dentro de si e lembrou dum frango inteiro que, sem vida, ocupava um terço da gaveta do congelador.

Pela primeira vez tocou um frango vivo e percebeu que os ferimentos nas asas eram superficiais. Sentiu alívio. “Porque também tinha algo nascendo dentro de mim.”

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