Categorias: Opinião

Não adianta reclamar do calor e continuar comendo carne

Foto: Greenpeace

Se a carne é importante causa do desmatamento, e que influencia também a qualidade do ar e o calor extremo que tem assolado o Brasil, é coerente continuar consumindo carne? Há algum tempo, Carlos Nobre e outros cientistas publicaram na revista Nature que a crise climática levará a uma capacidade de trabalhabilidade criticamente reduzida em consequência do aumento do impacto dessa crise para a saúde.

Hoje é fácil encontrar pessoas afirmando que não estão suportando o calor e a baixa umidade do ar, mas ao mesmo tempo elas acham que não há nada que podem fazer para ajudar a mudar essa realidade. E não participar do consumo dos produtos que mais favorecem esse impacto ambiental não é um bom caminho? Imagine se mais milhões de pessoas no Brasil abdicassem do consumo de carne.

Teríamos uma redução do uso de pastagens e de terras cultivadas para alimentar animais que são criados somente para serem explorados e mortos. Lembremos que no Brasil o solo ocupado pela pecuária é muito mal aproveitado, com um boi ocupando em média um hectare.

Se a resistência é econômica, podemos citar que um hectare produzindo açaí, cacau e castanha em sistema agroflorestal pode garantir rentabilidade cinco a dez vezes maior que a da agropecuária na região amazônica, por exemplo, como já apontou também o cientista Carlos Nobre.

Quando a pecuária leva à degradação do solo é comum o abandono dessa terra para explorar uma área nova e de baixo custo em relação à terra antiga – o que explica também o motivo pelo qual pecuaristas do Sul do Brasil, por exemplo, exploram hoje as terras do bioma amazônico.

Infelizmente para onde olhamos encontramos uma maioria de consumidores que ainda não reconhece a seriedade da relação entre produção/consumo de carne e impacto ambiental decorrente do desmatamento. Muitas pessoas ainda acham que é exagero e fazem piadas sobre o assunto.

Devemos lembrar também que no Brasil há muito mais bovinos do que humanos, o que permite refletir de forma mais específica sobre a demanda que envolve essa realidade em relação ao uso do solo, já que a agropecuária é a atividade que mais ocupa as terras agrícolas do Brasil. Devemos aumentar ainda mais essa diferença ou devemos reduzi-la? Mas a redução depende também de uma mudança de hábitos alimentares.

Se o calor hoje chega a ser considerado insuportável, o que esperar para os próximos 10, 20 anos se a demanda por carne não diminuir e sim aumentar, resultando em mais uso de terras e mais desmatamento? Infelizmente mesmo quem não contribui com as principais causas sofrerá com as piores consequências.

Embora quando se fala em desmatamento relacionado à pecuária seja mais comum a associação com a criação de bovinos, não podemos ignorar que a criação de porcos e galináceos também contribui com o desmatamento. Para compreender melhor, leia “Produção de carne suína e de frango também favorece o desmatamento“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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