Produção de carne suína e de frango também favorece desmatamento

Há quem acredite que ao deixar de consumir carne de boi o problema do desmatamento promovido pela pecuária estaria resolvido. Mas não é bem assim

(Fotos: Andrew Skowron/DPTA)

Quando o assunto é desmatamento, hoje a associação mais frequente envolvendo o sistema alimentar é com a criação de bovinos. Até porque os maiores rebanhos do país concentram-se exatamente na região amazônica, onde cresce o desflorestamento.

Com isso, tem sido explorada a ideia de que consumir carne bovina é apoiar grande impacto ambiental. Porém, a maneira como esse fato é apresentado pode fazer muita gente acreditar que ao deixar de consumir carne de boi o problema do desmatamento promovido pela pecuária estaria resolvido.

Mas não é bem assim. Sem dúvida, apenas para a formação de pasto a pecuária já requer grande demanda de terras agricultáveis no país, como podemos reconhecer apenas ponderando sobre sua expansão nas regiões mais desmatadas do Brasil, não somente na Amazônia. Afinal, cada boi criado no sistema extensivo ocupa hoje de 1 a 1,2 hectare, em média.

No entanto, o desmatamento no país também é alavancado pela produção de soja e de outros vegetais destinados a atender tanto ao mercado interno quanto externo de ração para espécies criadas para consumo. Só o cerrado brasileiro, é responsável por 60% dessa produção.

E é exatamente esse bioma que tem perdido área equivalente a uma cidade de São Paulo a cada 90 dias, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Além disso, metade da área original do bioma passou a ser ocupada pela agropecuária, conforme levantamento também reforçado pelo WWF-Brasil.

E por ano, bilhões de animais alimentados com essa soja são aves, principalmente frangos e galinhas, e suínos. Além de suprir a demanda da pecuária nacional, o Brasil abastece o maior mercado produtor e consumidor de carne do mundo, que é o chinês, que também é o maior importador de carne e responsável pela compra do produto mais exportado pelo Brasil – a soja.

Com pelo menos 77% da leguminosa destinada a alimentar animais criados para consumo, conforme já divulgado pela Aprosoja, o Brasil é o maior exportador de soja do mundo, com o produto sendo utilizado na criação de animais de diversas espécies na Ásia, Europa, Oriente Médio e América do Norte. O farelo de soja, por exemplo, é amplamente utilizado em todas as atividades pecuárias.

O mais importante 

Isso significa que além da contribuição dos consumidores brasileiros com o desmatamento, consumidores de muitos outros países também beneficiam esse sistema que prejudica os biomas brasileiros quando alimentam-se de animais, e não somente da carne bovina.

Acredito que o mais importante a se considerar quando pensamos em criação de animais para consumo e no impacto que isso gera é que estamos criando e matando animais para comer.

E nesse processo, demandamos um número crescente de áreas, tanto para criação quanto produção de ração, enquanto ignoramos que poderíamos aproveitar melhor as terras agrícolas e reduzir grande parte desse impacto produzindo alimentos vegetais para suprir as necessidades nutricionais da população.

Afinal, como pode ser coerente produzir tantos vegetais para alimentar animais que serão mortos para consumo? Não parece um caminho mais longo do que produzir vegetais para alimentar pessoas? As consequências ambientais de nosso sistema alimentar nos alertam o tempo todo para a necessidade de revermos a maneira como produzimos alimentos.

E se pensamos no futuro, o que podemos esperar de melhor para o planeta se não desacelerarmos o consumo de alimentos de origem animal que tende a crescer com o aumento anual da população? É urgente a importância de perceber que não há sustentabilidade em um sistema que já ocupa a maior parte das terras agricultáveis do mundo, e que, além dos problemas citados, são produtos que não estão e nunca estarão ao alcance de todos.

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