Pegou uma frigideira e levou ao fogo. Enquanto aquecia notou algo diferente sobre a mesa – uma rachadura na casca do ovo. Passou o dedo e parou, só que a rachadura aumentou e o ovo quebrou.
Saiu pintinho. Foi de um lado ao outro o observando – molhado, com as peninhas arrepiadas. “Como isso é possível? Não faz sentido…” Não piava, mas assistia.
Quando seus olhos piscavam, o pintinho imitava. Não apenas isso, mas todos os seus movimentos. Havia sincronia. Achou graça e sorriu. “Bonitinho.” Estático.
Cutucou e ele recuou. Ficou preocupado. “Acho que não agradei.” Não entendia por que não piava, não fazia som. Até seus passinhos desajeitados traziam silêncio.
Começou a ver um reflexo agigantado de si nos olhos do pequeno. Sua boca estava imensa, mas seus olhos tão minúsculos que eram ofuscados pela bocarra.
Não havia nariz, e os olhos, já pequenos, começaram a desaparecer. Esfregou as mãos pelo rosto e se acalmou. “Que coisa estranha!” Pintinho continuou no mesmo lugar, mas não se movia.
Sem emoção, estranheza, nada, e isso era o que mais o incomodava. “O que isso significa?” Deu três toques sobre a mesa, simulou perninhas de dedos e nada do pequeno reagir. Parecia indiferente.
Ainda o observava e quando olhou outra vez seu reflexo nos olhos do pintinho, sua cabeça sumiu, restando somente a boca, que sangrava sem parar, expelindo uma porção de penas.
Virou o rosto de lado, esfregou a mão no rosto todo e não notou nada de diferente, nem o pintinho, que tinha desaparecido.
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