Usar o termo “carnista” é péssimo

É muito comum encontrar veganos que utilizam o termo “carnista” para se referir a pessoas que comem carne. Esse termo criado por Melanie Joy, e que ganhou visibilidade a partir do livro “Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”, tem um uso bem problemático, ainda que sua intenção fosse trazer conceitos descritivos e nomear um sistema de opressão invisível derivado do especismo – “carnismo”.

O termo “carnista” é polarizador porque favorece uma divisão do tipo “nós” e “eles”, e isso não tende a facilitar um diálogo quando em vez de uma ponte já estabelecemos uma barreira a partir desse uso.

Não vejo como tentar motivar uma predisposição a uma reflexão sobre o consumo de carne se chamo alguém de “carnista” – já que é mais fácil que isso gere uma indisposição – pelo estranhamento, por soar pejorativo.

É melhor conversar com as pessoas ou motivá-las a refletir sobre o consumo de animais sem usar termos que reforcem uma diferença que pareça polarizadora. A linguagem deve ser familiar para evocar uma horizontalidade, não uma verticalidade que leve a uma pronta rejeição.

Claro que posso dizer que a verticalidade está no que fazemos arbitrariamente contra os animais, mas essa é uma visão vegana, não de quem ainda se alimenta de animais. Portanto é importante que a comunicação ocorra levando em conta termos com os quais as pessoas que queremos envolver na consideração por uma mudança estão acostumadas.

Ademais, avaliando o uso mais recorrente do termo “carnista”, não é equivocado dizer que ao se referir a alguém como carnista não se visa propor uma reflexão, mas criticar quem consome carne – portanto “carnista” soa como um ataque. Exemplo: “Esses carnistas!”

Rotular alguém como “carnista” transforma um comportamento socialmente normatizado (consumo de animais) em uma identidade antagonista. A pessoa se sente atacada, não convidada a uma consideração. E como mostra a psicologia social, rótulos ativam viés de grupo, algo que tem um impacto ainda mais negativo se soa tão divisionista quanto pejorativo.

O termo “carnista” também pressupõe consciência moral, sendo que a maioria das pessoas sequer já refletiu sobre o especismo – como muitos de nós antes de nos tornarmos veganos. Logo, o termo ativa “ameaça moral” – a pessoa sente seu caráter atacado, não seus hábitos, o que dificulta uma reflexão sobre o que é colocado, se o termo carnista já gera uma prévia rejeição.

Se queremos aproximar as pessoas de uma mudança, então isso não ajuda. Logo, sempre me pareceu mais adequado não chamar alguém de “carnista”, que é um termo que não favorece uma aproximação.

Pessoas se veem como consumidoras de carne e podemos apontar os problemas que envolvem esse consumo sem recorrer a termos que levem a uma reação defensiva porque estão fora do campo da familiaridade e soam polarizadores. As pessoas precisam se sentir incluídas, não excluídas.

Afinal, a grande maioria dos veganos já foram não veganos. O uso do termo “carnista” pode evocar “um jogo de superioridade moral” em que quem ouve o termo menos ainda desejará ouvir o que alguém tem a dizer. Enfim, “carnista” soa pejorativo mesmo sem ser a intenção de Melanie Joy.

Mostrar que também já participamos do especismo soa inclusivo, diferentemente de fazer parecer que o problema surge com quem falamos e está essencialmente em com quem falamos. O foco deve ser o costume, a cultura, o sistema, não o indivíduo.

Se Melanie Joy criou o termo “carnismo” como conceito descritivo, na prática não há como ignorar que virou uma “arma identitária”. Como propõe o filósofo budista Daisaku Ikeda, o foco da crítica deve estar no ato, não no sujeito. Afinal, há um sistema que naturaliza o consumo animal.

Observações

Isso não é sobre desmerecer a obra de Melanie Joy, já que há questões colocadas por ela que podem permitir importantes reflexões. No entanto não vejo necessidade de trazer tais termos para a realidade do ativismo quando visamos uma aproximação com pessoas que se alimentam de animais, já que chamar alguém de carnista não ajuda.

Embora o conceito de “carnismo” como sistema invisível tenha valor analítico descritivo, seu uso como rótulo identitário aplicado a indivíduos (“carnista”) é contraproducente para o objetivo de engajar pessoas não veganas em uma reflexão crítica. Ele gera divisão, defesa e rejeição, minando a ponte necessária para um diálogo eficaz.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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