Uso de pele animal é uma forma de banalização da violência

Uma reflexão a partir do filme “Ilha de Bergman”, da francesa Mia Hansen-Løve

Como uso humano, a pele do carneiro é a invisibilidade do carneiro (Imagens: A Ilha de Bergman/Tommaso Ausili)

No filme “A Ilha de Bergman”, da francesa Mia Hansen-Løve, a pele de carneiro aparece em diversas cenas. Peles abertas e dispostas em cavaletes são exibidas inteiriças. Podemos imaginar a forma como a pele envolveu o corpo do animal, protegendo sua carne.

Do início ao fim do filme, as peles aparecem, e porque nunca desaparecem daquele cenário. São parte de uma realidade em que nada disso é pensado como possível numa associação com um mal evitável, nem mesmo com qualquer mal.

No filme a referência mais comum é feita não ao animal adulto, e sim ao cordeiro, o animal ainda filhote que morre na precocidade. Mesmo assim a pele é observada como algo a presentear alguém ou se presentear.

A pele é tratada como algo agradável, desejável. A pele marca uma construção contraditória de proximidade. Ao ser o que reafirma uma expressão de bem querer (ao humano), é também o que surge pela determinação de um mau querer (ao ovino).

A pele é para cobrir um corpo que prescinde dessa pele, ou seja, que tem a sua própria. Vemos mais a relação humana nesse cenário com o que sobre o carneiro é morte do que vida, mesmo que o ambiente e as intenções dos personagens sejam voltados às considerações da vida.

O carneiro não é mais presença viva do que morta, que pelo que fica é somente comércio e uso. A pele é uma constante em “A Ilha de Bergman”, e move-se com o vento, cobre um corpo humano que sorri e reflete muito, mas jamais sobre essa realidade não humana.

Tudo ali é sobre o ser humano. O não humano é como ausência – o cordeiro como espoliação ou despojo, desapropriação do ser, por violência. Assim, por paradoxo, a visibilidade do carneiro está na invisibilidade.

Mesmo na referência como “pele de” é como se o acompanhamento que não cito agora trouxesse um sentido que não tem relação real com o animal.

Porque o animal é pensado como referenciação à pele; como se a pele e seu uso fossem precedentes ao animal. Dessa forma, nessa estranha quimera, ele pode ser subtraído ou abstraído.

Na ilha sueca de Fårö, onde se pensa Ingmar Bergman e o que também é alheio ou indiferente a Ingmar Bergman, a estima pelas peles têm seu lugar, um lugar irrefletido pela cultural romantização.

O filme está disponível no Mubi.

Leia também “Couro não é morte?“, “Não é uma violação arrancar o couro ou pele de um animal para uso humano?” e “Como a romantização ajuda a perpetuar a exploração animal“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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